
BUKOWSKI - TEXTOS AUTOBIOGRÁFICOS
Charles Bukowski
editado por John Martin
Tradução de Pedro Gonzaga
Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas.
Eu era um solitário por natureza, que se contentava em viver com uma mulher, em comer com ela, dormir com ela e sair à rua com ela. Não queria conversas, nem passear, a não ser para ir às corridas de cavalos ou às lutas de boxe. Não gostava de TV, e achava estúpido gastar dinheiro para ir numa sala de cinema com outras pessoas e partilhar as suas emoções. As festas me deixavam doente. Detestava as falsas aparências, os jogos sujos, os namoricos, os bêbados amadores e os chatos. [...] Como solitário, eu não suportava invasões. Isto não tinha nada a ver com ciúmes, simplesmente não gostava de pessoas, multidões, onde quer que fosse, exceto nas minhas leituras. As pessoas diminuíam-me e deixavam-me sem ar. [...] Eu não gostava de Nova Iorque, não gostava de Hollywood, não gostava de Rock, não gostava de nada. Talvez tivesse medo... "os maiores homens são os mais solitários".
Bom tempo é como boas mulheres - não acontece sempre e quando acontece não dura para sempre.Um homem é mais estável: Se ele é ruim é mais provável que continue assim, ou se ele é bom ele pode se fixar, mas a mulher se modifica para sempre pelos filhos, pela idade, pela dieta, pela conversação, pelo sexo, pela lua, por haver ou não haver sol ou bom tempo. Uma mulher tem que ser ninada pra subsistir pelo amor, onde um homem pode se tornar mais forte por ser odiado. Estou bebendo esta noite no Spangler's e me lembro das vacas que pintei certa vez na aula de arte e pareciam bem, pareciam está melhor do que tudo ali. Estou bebendo no Spangler's pensando em qual amar e qual odiar, mas já não há regras: amo e odeio somente a mim mesmo - os outros ficam além de mim.
Eu me sentia como se fosse destinado a ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um eremita. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram desagradáveis. A vida dos homens são e medianos era tediosa, pior que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também me parecia ser uma armadila. A pouca educação que eu obtive me fez ficar ainda mais desconfiado. O que eram os médicos, os advogados, os cientistas? Apenas homens que se deixaram privar de sua liberdade de pensar e agir como individuos.
Fiquei cansado de ir aos bares e depois fiquei cansado até de dirigir até a loja de bebidas, comecei a encomendar por telefone. Eles me conheciam. Alguns tinham lido meus livros. Podia ouvi-los falando no fundo através do telefone, estavam discutindo sobre quem iria entregar o pedido, todos queriam entregar, eles queriam ver o circo de horrores: eu na porta com cabelo na cara, minha barriga de cerveja sob a camiseta, meus olhos vermelhos, minha barba por fazer, as garrafas no chão, as mulheres. Eles queriam ver isso.
Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho e fazer com que as palavras tenham algum sentido. Já vejo o suficiente da humanidade nos hipódromos, nos supermercados, nos postos de gasolina, nas estradas, nos cafés etc. Não se pode evitar. Mas tenho vontade de me dar um chute na bunda quando vou a festas, mesmo que a bebida seja de graça. Nunca funciona comigo. Já tenho argila suficiente para brincar. As pessoas me esvaziam. Preciso sair para me reabastecer. Sou o que é melhor para mim, sentado aqui atirado, fumando um baseadinho e vendo as palavras brilharem na tela. Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. É mais que pertubador, é um choque constante. Está me tornando um maldito mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria é.
Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora. Vá se foder, colega. E não gosto também de Tolstoi.
"... Sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais e nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com outro. Contudo, pouco me importava..."
Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele,e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te.
"Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa (...) O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles mesmos me causem horror. E horror é uma gentileza."
Se vai tentar siga em frente. Senão, nem começe!
Terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida – careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho e feliz por ter um quarto. De manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro:
Sinto-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes susceptíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se até assassinas...