24 de mar de 2015

Pernas

Charles Bukowski


Tradução de Claudio Willer

Novos poemas do velho safado

ela chegou de táxi
completamente embriagada.
[...]
e lá estava eu
olhando-a [...]
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
[...]
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.

 Fonte:  http://www.lpm-blog.com.br/

24 de fev de 2015

As razões de Bukowski


Não é de hoje que o velho safado Charles Bukowski é acusado de escrever obscenidades por puritanos e moralistas de dedo em riste. Em 1985, uma biblioteca pública de Nijmegen, na Holanda, decidiu retirar de suas prateleiras o livro Crônica de um amor louco, sob a alegação de que seu conteúdo seria “muito sádico, ocasionalmente fascista e discriminatório contra determinados grupos”. Por grupos, entendia-se mulheres, negros e gays. Bem politicamente incorreto como só Bukowski sabia ser.
Algum tempo depois, o Ministro Hans van den Broek entrou em contato com o autor para saber sua opinião sobre o ocorrido. Eis a resposta que só Bukowski daria:



Se o seu inglês não dá conta, aí vai a tradução feita pelo blog quadrinhos e etc.:
Caro Hans van den Broek:
Obrigado por sua carta contando-me da remoção de um dos meus livros da biblioteca Nijmegen. E que ele é acusado de discriminação contra negros, homossexuais e mulheres. E que é sádico por causa do seu sadismo.
A única coisa que temo discriminar é o humor e a verdade.
Se eu escrevo mal sobre os negros, homossexuais e mulheres, é por que os que eu conheci eram assim. Há muitos “males” – cães maus, má censura, há até mesmo “maus” homens brancos. Somente quando você escreve sobre “mau”, homens brancos não reclamam. E eu preciso dizer que há “bons” negros, “bons” homossexuais e “boas” mulheres?
No meu trabalho, como escritor, eu só fotografo, em palavras, o que vejo. Se eu escrever sobre “sadismo” é porque ele existe, eu não inventei isso, e se algum ato terrível ocorre no meu trabalho é porque essas coisas acontecem em nossas vidas. Eu não estou do lado do mal, como se o mal fosse algo inerente. Eu meus escritos, eu nem sempre concordo com o que ocorre, nem vou me afundar na lama por causa deles. Além disso, é curioso que as pessoas que gritam contra o meu trabalho parecem ignorar as partes dele que enaltecem a alegria, o amor e a esperança, e há essas partes. Meus dias, meus anos, minha vida viu altos e baixos, luzes e trevas. Se eu escrevesse só e continuamente da “luz” e nunca mencionasse o outro, então como artista eu seria um mentiroso.
A censura é a ferramenta daqueles que têm a necessidade de esconder realidades de si mesmos e dos outros. Seu medo é apenas a sua incapacidade de enfrentar o que é real, e eu não posso desabafar minha raiva contra eles. Eu só sinto essa tristeza terrível. Em algum lugar, na sua educação, eles estavam protegidos contra os fatos de nossa existência. Eles só foram ensinados a olhar de um jeito, quando existem muitas maneiras.
Eu não estou desanimado que um dos meus livros tenha sido caçado e retirado das prateleiras de uma biblioteca local. Em certo sentido, sinto-me honrado que eu escrevi algo que despertou essas pessoas de seu eu superficial. Mas fico magoado, sim, quando alguém tem seu livro censurado, pois esse livro, geralmente é um grande livro e há poucos desses, e ao longo dos tempos esse tipo de livro tem muitas vezes se tornado um clássico, e o que se acreditava chocante e imoral é hoje leitura obrigatória em muitas das nossas universidades.
Não estou dizendo que meu livro é um desses, mas eu estou dizendo que em nosso tempo, nesta época em que qualquer momento pode ser a último para muitos de nós, é condenadamente irritante e incrivelmente triste que ainda temos entre nós a pequenez, as pessoas amargas, os caçadores de bruxas e os declamadores contra a realidade. No entanto, estes também pertencem a nós, eles são parte do todo, e se eu não tenho escrito sobre eles, eu deveria, talvez o faça, e isso é suficiente.
que todos nós possamos ficar melhor juntos,
seu,
Charles Bukowski


Fonte:  http://www.lpm-blog.com.br/?p=12547

18 de dez de 2014

Algo cheira mal




Levarei séculos pra tirar as Hepburns e os críticos do caminho, e isso é que é o mais triste, é mais do que triste: as nossas vidas mal chegam a um século, e o que nos mata não são os Hitlers e o s Nixons, mas os intelectuais, os poetas, os acadêmicos, os filósofos, os professores, os liberais, todos os nossos amigos - ou, melhor, seus amigos.
Sempre gostei mais das conversas dos caras da prisão do que das dos caras da universidade; acho que os caras das ferrovias têm bem mais colhões e luz e bem menos tédio do que aqueles que ganham 400.000 dólares por semana pra uma temporada de um mês em Vegas. Por que isso? Não sei, acho que nem Deus pode responder. Só sei que fomos enganados por séculos, e isso vai longe, até Cristo cheira mal, Platão cheira mal, e não estou falando de seus sovacos.
Acho que tudo que podemos fazer é tirar uma foto, esperar e cair fora.

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.


16 de dez de 2014

Dirigindo Bêbado






 Eu diria que uma das teorias de Prevenção ao Crime é prevenir o crime antes de ele acontecer. Em outras palavras, um homem pode ser punido se dirige bêbado não porque tenha infligido algum dano a outra pessoa e/ou propriedade, mas porque ele é capaz de fazê-lo. E também sou capaz de presumir que a linha que separa o está bêbado do não está bêbado é bastante tênue e que muitas vezes esta linha está muito mais próxima da sobriedade. E ainda que um homem consiga provar, novamente segundo os parâmetros deles, que não estava bêbado, o dano já terá ocorrido, pois ele teve de pagar a fiança e os custos com advogado, sem falar no massacre sobre seus nervos; e a depressão, a preocupação, a surpresa e a perda de tempo também não poderão ser reparadas.
Em outras palavras, por seguir a teoria de que um motorista bêbado possa, em probabilidade, infligir dano e/ou dor, ele acaba preso e multado pesadamente, pois é condenado pelo mal que poderia ter feito. Bem, vamos estender agora esta teoria a outras áreas da vida ativa e já veremos que toda criatura humana deveria ser presa porque cada uma delas pode ser capaz de cometer algum tipo de crime, em maior ou menor grau, contra a sociedade.
Vamos analisar agora o caso de um motorista bêbado que não tenha infligido nenhuma dor/perda – embora ele mesmo tenha sofrido na carne a dor e a perda imposta pela lei sob o nome de justiça. Em outras palavras, a lei inflige dor onde antes não havia dor nenhuma. Além da multa e da cadeia, há ainda a perda da habilitação ou mesmo do emprego desse homem, e muitas vezes se torna difícil encontrar um novo emprego em função a sua “ficha suja”.
Se pretendermos viver num mundo melhor (e quem é suficientemente sofisticado para não desejar algo assim?), a eliminação das dores desnecessárias é um bom começo. Querem dar umas boas risadas? Querem saber o que eu acho que os policiais deveriam fazer com os bêbados? Deveriam leva-los para casa em vez de manda-los para a cadeia. Enfiem os bebuns inveterados debaixo das cobertas, arrumem uma saideira e digam para ficar em casa o resto da noite. Ridículo? Por quê? Pago meus impostos para ser assistido, não molestado. 

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.

15 de dez de 2014

Loucos e desajustados






Estou aqui sentado, bêbado, me perguntando onde e como estarei amanhã. O cortiço não é lugar para um homem que deseja a privacidade de seus pensamentos. Dizem que sou um poeta honesto e que manejo o pincel com destreza, e recebo cartas perfumadas de mulheres distantes, mas estou pronto para os corvos que se voltam contra o sol da minha razão, enquanto escuto Rachmaninoff no rádio preciso jarreterar amanhã, digo a vocês que somos todos loucos e desajustados e que os figurões da universidade, que ensinam poesia das janelas empoeiradas de um campus tranquilo, não sabem nada a respeito destas paredes, ou das senhorias de South Hollywood, ou dos rotos desgastados no cortiço, onde as palavras de Rimbaud ou Rilke significam menos do que um centavo, onde todo o amor da humanidade e a vida valem menos do que rolos de papel que nos fazem as vezes de lençóis, menos do que os ratos que nos conhecem e com quem dividimos os becos, nossas pequenas e mudas derrotas. 

Charles Bukowski – pedaços de um caderno manchado de vinho

26 de set de 2014

Encurralado

(Tradução: Pedro Gonzaga)

bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra

ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…

ainda não, velho cão…
logo em breve.

agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”

“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”

“bem, não, mas agora…”

agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.

agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona

enquanto as sombras assumem
formas

combato retirando-me
lentamente

agora
minha antiga promessa
definha
definha

agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas

tem sido um belo
combate

ainda
é.

fonte: http://www.revistabula.com/835-os-10-melhores-poemas-de-charles-bukowski/

10 de set de 2014

Auto-ajuda no estilo Bukowski

Auto-ajuda no estilo Bukowski (se é que isso é possível)


Que tal alguns conselhos de Charles Bukowski, esse escritor que sempre compartilhou seus pontos de vista e opiniões sem filtro. Em seus textos, o velho Buk forneceu uma gama abundante de dicas de como passar seus dias. O Beat Museum (Museu dedicado aos beats) compilou algumas de suas citações e, a partir delas, organizou dez conselhos valiosos para quem quer levar uma “kick-ass life” (uma vida fodida). Aí vai:

1. NÃO SE ACOMODE
“Eu quero o mundo inteiro ou nada.”
careta_bukdedo

2. AME A SI MESMO
“Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que eu posso encontrar.”
maquina beijo

3. ÀS VEZES, ENLOUQUEÇA
Essas pessoas que nunca enlouquecem devem levar uma vida, verdadeiramente, horrível.”
buk_caretinha

4. NÃO TENHA MEDO DA DOR
“Você tem que morrer algumas vezes antes de realmente viver.”
buk_melancolico

5. SEJA AUTÊNTICO
“É melhor fazer uma coisa maçante com estilo do que algo perigoso sem estilo.”
buk_flores

6. LEMBRE-SE DE QUE VOCÊ É MAIS FORTE DO QUE PENSA
As vezes você levanta da cama de manhã e pensa, eu não vou conseguir, mas então você ri por dentro lembrando todas as vezes que já sentiu isso.”
buk_roupao

7. NÃO TENHA MEDO DA MORTE
Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso, e falo com ela: ’oi gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto’.”
bukowskigrave

8. NÃO DESISTA OU NEM COMECE
“Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece.”
buk fusca

9. NÃO ESPERE SER TARDE DEMAIS
Existem coisas piores que estar sozinho, mas geralmente leva décadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais.”
buk_gato

10. NÃO LEVE A VIDA TÃO A SÉRIO
“Às vezes você só precisa mijar na pia.”
Buk feliz

Fonte: http://www.lpm-blog.com.br/?p=25033

 

4 de set de 2014

O parceiro de Bukowski





MEU PARCEIRO

sentado sob esta luz
olhando para o Buda.
o Buda  ri
de mim
e de todas as coisas:
chegamos tão longe
e fomos a  lugar nenhum.
vivemos  muito e
tão pouco afinal.
o Buda está rindo.
o Buda é esta estátua de
porcelana diante
de mim  nesta noite.
enquanto os poemas
não chegam.

(De Miscelânea septuagenária, livro recém lançado de Bukowski que traz contos e poemas inéditos)

20 de ago de 2014

As massas

 

 
Todas as pessoas solitárias, amargas e miseráveis que
se sentem menosprezadas, traídas pelas forças, elas
culpam a vida, as
circunstâncias, culpam os outros quando de fato
elas
são totalmente insossas, obedientes à sua falta de originnalidade,
covardes e plácidas, seguem se sentindo enganadas,
infestando a terra
com suas lamúrias, com seus ódios –
embotadas no centro de lugar nenhum, esses milhões
de erros
humanos, indo dia após dia e noite após noite através
de seus movimentos castrados,
acabam por ferir a própria terra, ferir todas as coisas,
este desperdício
o horror de todo esse
desperdício.

Buk. - MISCELÂNEA SEPTUAGENÁRIA: CONTOS E POEMAS - LPM

23 de out de 2012

Aos integrantes e visitantes do blog.




 
Prezados admiradores do Velho Safado, segue abaixo o link onde vocês podem encontrar diversos poemas do velho Buk, todos originais. Quem por ventura desejar traduzir alguns e querer que seja publicado aqui no bukowskibar, é só encaminhar, (não esqueça de colocar seu nome/blog). Terei o maior prazer em publica-los, afinal esse blog é para vocês.
Um abraço a todos, e obrigado pela visita.

JB.

Segue:   http://authenticbukowski.com/manuscripts/

Os garotos da praia

 
Apenas os jovens estão na praia.
eu tenho um corpo bom para a minha idade
pescoço e peito de touro
e poderosas pernas.
mas minhas costas são marcadas
por uma doença.
eu sinto um pouco de vergonha de minhas deformidades
e eu não estaria lá
apenas minha mulher insiste
e se ela tem a coragem de estar lá
comigo
então eu preciso ter a coragem de ir
com isso.

mas eu me pergunto onde o velho e o aleijado
e o feios estão?
as praias não deveriam ser deles também?
onde estão as pessoas de uma perna só?
os sem braços?

Eu vejo os meninos em suas pranchas
corpos finos deslizando.

alguns deles acabarão em manicômios
alguns deles vão ganhar 40 quilos
alguns deles irão cometer suicídio.

a maioria deles vão parar de vir para a
praia.

e há o sol e há a areia
e os meninos jovens aumentam as paliçadas de água
e as meninas jovens assistem eles.

eles são imprudentes e contentes.

eu me alongo
curvo meu estômago
e eles
se foram.


27 de dez de 2011

Noite de Natal


Noite de Natal, sozinho, num quarto de motel
junto à costa perto do Pacífico -
ouviu?

Eles tentaram fazer desse lugar algo espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete rosa.

Não nos encontrarão por aqui:
as piranhas ou as damas ou os adoradores
de ídolos.

Lá na cidade eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.

Em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das duas,
estirado na cama, esperando o telefone tocar,
sem responder, meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.

BUK.

26 de dez de 2011

Um mundo cheio de João


João com o cabelo solto, 
João exigindo dinheiro, 
João da barriga grande, 
João da voz alta, alta, 
João da troca, 
João que se exibe para as garotas, 
João que acha que é um gênio, 
João que vomita, 
João que fala mal dos sortudos, 
João ficando cada vez mais velho, 
João ainda exigindo dinheiro, 
João escorregando pelo pé de feijão, 
João que fala mas não faz, 
João que escapa impune do assassinato, 
João que faz biscates, 
João que fala dos velhos tempos, 
João que fala e fala, 
João com a mão estendida, 
João que aterroriza os fracos, 
João, o amargurado, 
João dos cafés, 
João implorando reconhecimento, 
João que nunca tem emprego, 
João que superestima totalmente seu potencial, 
João que fica gritando sobre seu talento não reconhecido, 
João que culpa a todos.

Você sabe quem é João, você o viu ontem, você o verá amanhã, você o verá semana que vem.
Querendo sem fazer, querendo de graça.
Querendo fama, querendo mulheres, querendo tudo.
Um mundo cheio de Joãos descendo pelo pé de feijão.


Buk -  "O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio".

22 de ago de 2011

O jeito que isso é

o inferno está lotado ainda
você sempre pensa que você está sozinho.

e você nunca pode dizer
a ninguém que
você está no inferno
ou eles vão pensar
que você está louco.

mas ser louco é
estar no inferno
e ser sensato também.

aqueles que escapam do inferno
nunca falam sobre isso
e nada mais
incomoda eles depois disso.

Quero dizer, coisas como
falta de uma refeição,
ir para a cadeia,
bater seu carro ou mesmo
morrer.

quando você perguntar-lhes,
"como as coisas estão indo? "
eles vão responder:
"bem, muito bem ... "

uma vez que você foi para o inferno
e voltou
é o bastante, é a
mais silenciosa celebração conhecida.

uma vez que você foi para o inferno
e voltou,
você não olha para trás
quando o chão range.
o sol está no alto a meia-noite

e coisas como os olhos de ratos
ou um velho pneu
em um terreno baldio
pode torná-lo feliz.

uma vez que você foi para o inferno
e voltou.

BUK.

7 de jul de 2011

Outra cama

outra cama
outra mulher

mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha

outros olhos
outro cabelo
outros pés e dedos.

todos à procura.
a busca eterna.

você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu à última e à outra antes dela…
é tudo tão confortável - esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…

após ela sair você se levanta e usa o banheiro dela, é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e dorme mais uma hora.

quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente quer funcione, quer não.

você dirige até a praia e fica sentado em seu carro. é meio-dia.

- outra cama, outras orelhas, outros brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos, cores, portas, números de telefone.

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais sensato.

você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para Janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.

Buk - O Amor É um Cão dos Diabos

13 de jun de 2011

Quatro e meia da manhã

quatro e meia da manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã, são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e como algo esfaqueado e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.


fonte: http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/03/22/a-noite-sera-de-devagar-poema-de-charles-bukowski/

Oh Sim

há coisas piores do que estar só
mas costuma levar décadas
até que o percebamos e frequentemente
quando o conseguimos é demasiado tarde
e nada pior do que ser demasiado tarde.

Charles Bukowski
(tradução de Tiago Nené)


Origem: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/38862.html

26 de abr de 2011

2 de abr de 2011

462-0614

agora recebo muitas chamadas de telefone.
todas iguais.
"é Charles Bukowski, o escritor?"
"sim," eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha escrita.
alguns deles são escritores ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam conversar,
não podem acreditar que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar que agora mesmo me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas e dizendo. "Jesus Jesus Jesus, de novo não!"
eles não podem acreditar que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o jogo.
Não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma dessas coisas.
é por isso que meu nome está na lista.

Buk - o amor é um cão dos diabos.

1 de abr de 2011

Barata

a barata rastejou sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando
e ao virar minha cabeça
ela enfinou o traseiro numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerososol
e disparei e disparei oe finalmente a barata saiu e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro da banheira e fiquei assistindo à sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a na descarga. era tudo o que se tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e Western temos que seguir fazendo isso.
dizem que algum dia essa tribo herdará
a terra
mas faremos com que esperem mais alguns meses.

Buk - O amor é um cão dos diabos.

Meus camaradas


aquele ali ensina
aquele outro vive com a mãe.
e aquele outro é sustentado por um pai alcoólatra e rubicundo
dono de um cérebro de mutuca.
aque ali toma boletas e vem sendo sustentado pela mesma mulhar há 14 anos.
aquele outro escreve um romance a cada dez dias
msa ao menos paga o próprio aluguel.
aquele ali vai de lugar em lugar
dormindo em sofás, bebndo e proferindo seus discursos.
aquele ali imprime seus próprios livros numa máquina copiadora.
aquele outro vive num vestiário abandonado num hotel de Hollywood.
aquele parece saber como arranjar tostão depois de tostão, sua vida é um preenher de formulários.
aquele ali simplesmente é rico e vive nos melhores lugares enquanto bate às melhores portas.
aquele lá tomou café com Willian Carlos
Willian.
e aquele ali ensina.
e aquele ali ensina.
e aquele ali publica livros de auto-ajuda sobre como fazer as coisas e usa uma voz dominadora e cruel.
eles estão em todo o lugar.
todos são escritores.
e quase todo escritor é um poeta.
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
a próxima vez que o telefone tocar será um poeta.
a próxima pessoa a bater à porta ser á um poeta.
aquele ali que ensina
e aquele outro vive com a mãe
e aquele lá está escrevendo a história de Ezra Pound.
oh, irmãos, somos as mais doentes e as piores criaturas da raça.

Buk - o amor é um cão dos diabos.

25 de mar de 2011

Melancolia


A história da melancolia inclui todos nós.
a mim, eu me contorço em sujos lençóis
enquanto observo as paredes azuis e o nada.
acostumei-me tanto à melancolia que
a cumprimento como uma velha amiga.
Ficarei de luto por 15 minutos por ter perdido aquela ruiva,
digo isso aos deuses. eu faço isso e me sinto completamente mal.
completamente triste, então me levanto
LIMPO
embora nada tenha sido resolvido.
é isso que consigo por chutar a bunda da religião.
eu deveria ter chutado a bunda da ruiva
onde seus miolos, seu pão e sua manteiga estão no…
Mas, não, eu tenho me sentido triste por tudo isso:
ter perdido a ruiva foi, somente, outra porrada que foi dada numa vida inteira
fracassada…
escuto os tambores no radio agora e forço um sorriso.
além da melancolia há algo de errado comigo.

Tradução de Alice Dias

Fonte: http://www.literaturaemfoco.com/?p=3123

De volta

Eu estava novamente em casa. Era ótimo. Recurvei-me sobre minha barriga. No Vietnã, os exércitos estavam lutando. Nos becos, os vagabundos mamavam em suas garrafas de vinho. Vi uma aranha escalando o peitoril da janela. Vi um jornal velho no chão. Havia uma foto de três garotas pulando uma cerca e mostrando muito das pernas. O lugar todo se parecia comigo e tinha meu cheiro. O papel de parede me conhecia. Era perfeito. Estava consciente de meus pés e meus cotovelos e meus cabelos. Não me sentia como se tivesse 45 anos de idade. Sentia-me como um maldito monge que recém houvesse recebido uma revelação. Sentia-me como se estivesse apaixonado por algo que fosse muito bom, mas não sabia exatamente o quê, exceto que estava ali, bem perto. Escutei todos os sons, os ruídos das motocicletas e dos carros. Ouvi os cães latindo. Pessoas rindo. Então dormi. Dormi e dormi e dormi. Enquanto uma planta olhava através da minha janela, enquanto velava meu sono. O sol seguia sua labuta e a aranha ficou a rastejar por ali.

Buk - Ao sul de lugar nenhum.

14 de fev de 2011

Henry Chinaski - Cartas na Rua


Henry Chinaski é um pobre diabo que vive bêbado pelas ruas de Los Angeles. Depois de passar por dezenas de subempregos em mais de uma dúzia de cidades dos EUA, se emprega nos correios como carteiro temporário para entregar cartões de natal. Moleza pra quem já havia trabalhado em matadouros. Depois passa a carteiro estagiário. Começa bem, mas quando é transferido para a agência Oakford, cujo encarregado é Jonstone, um carrasco merecidamente apelidado de Stone, começa o inferno para Hank. os estagiários ficavam esperando que algum efetivo não viesse trabalhar para receberem alguma rota e só assim fazerem jus a algum pagamento. Stone reservava as piores para Chinaski. Toda rota tinha uma armadilha que só os efetivos conheciam e não contavam. Foi perseguido por cães raivosos e madames loucas. Sempre chegava atrasado e Jonstone o colocava no relatório. Hank tinha uma companheira, Betty, mais louca e alcoólatra do que ele. Betty era 10 anos mais velha. Mas era pro rabo dela que ele voltava quando Stone o sacaneava e não lhe dava serviço. Bebia a noite inteira com Betty e ia pro trabalho invariavelmente de ressaca. O correio era um emprego seguro, mas penoso e muitas vezes desumano.

Alter Ego Henry Chinaski - Bukowski - Cartas na rua

31 de jan de 2011

A Tela

Não suporto as lágrimas
havia algumas centenas de imbecis
em volta de uma ganso que tinha partido uma perna
enquanto decidiam
o que fazer
quando um polícia apareceu
e sacou seu revolver
e pronto, o assunto estava encerrado
exceto para uma mulher
que saiu correndo de sua barraca
grintando que tinham matado seu animal de estimação
mas o polícia agarrou o seu cinto
e disse-lhe
vai para o raio que te parta,
queixa-se ao presidente da república;
a mulher ficou chorando desconsoladamente
e eu não suporto as lágrimas.

Arrumei a minha tela
e fui para outro campo:
os filhos da mãe haviam estragado
a toda a paisagem.

Buk

24 de jan de 2011

Sonho

Não ando dormindo bem ultimamente; mas é sobre isso, exatamente, que pretendo falar. É quando parece que vou pegar no sono que acontece. Eu disse “parece que vou pegar no sono” porque não passa disso. De uns tempos pra cá, tenho cada vez mais a impressão, a sensação, de que estou dormindo e, no entanto, no meu sonho eu sonho com meu quarto, que estou dormindo e que tudo está no mesmo lugar onde deixei quando fui pra cama. O jornal caído no chão, a garrafa de cerveja vazia em cima da cômoda, meu único peixinho dourado circulando devagar no fundo do aquário, todas essas coisas tão íntimas que parecem que já fazem parte de mim como o meu cabelo. E muitas vezes, quando NÃO estou dormindo, deitado na cama, olhando pras paredes, cochilando, esperando pra dormir, é freqüente me perguntar: ainda estou acordado ou já peguei no sono e sonho com meu quarto?

Tem acontecido muita coisa ruim ultimamente. Mortes; cavalos correndo mal; dor de dente; hemorragias, sem falar noutras coisas que não convém mencionar. Volta e meia me vem a sensação de que, ora, pior é que não pode ficar. E aí eu penso, bem, pelo menos você tem onde morar. Não anda aí pela rua. Houve tempo em que não me importava com isso. Hoje acharia insuportável. São poucas as coisas que ainda acho suportáveis. Já fui alfinetado, lancetado, é, inclusive bombardeado… com tanta frequência que simplesmente não agüento mais; não conseguiria enfrentar outro fogo cerrado.

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

21 de jan de 2011

O grande rebu da maconha

uma noite destas fui a uma reunião - em geral, o tipo do troço chato pra mim. sou, essencialmente, um solitário, um velho beberrão que prefere beber sozinho, talvez com a única esperança de escutar um pouco de Mahler ou Stravínsky no rádio. mas lá estava eu no meio da turba enlouquecedora. não vou explicar o motivo, pois isso já é outra história, talvez mais longa, e mais confusa ainda, porém, ao ficar ali parado, tomando meu vinho, ouvindo o The Doors, os Beatles ou o Airplane, misturados com todo aquele vozerio, percebi que precisava de um cigarro. estava a zero. como sempre, aliás. aí vi aqueles 2 rapazes por perto, braços caídos e oscilando; os corpos frouxos, feito gansos; pescoços girando; os dedos das mãos à vontade - em suma, pareciam feitos de borracha, um elástico que se esticava, puxava e partia. cheguei perto:
- ei, caras, um de vocês tem cigarro?
foi o que bastou pra borracha começar a saltar. fiquei ali parado, olhando, enquanto se entusiasmavam, estalando os dedos e batendo palmas.
- aqui ninguém fuma, bicho! BICHO, a gente não ... fuma.
- não, bicho, a gente não fuma, não desse tipo, não, bicho.
flipflop. flipflap. que nem borracha.
- nós vamos pra M-a-li-buuu, cara! é, nós vamos pra Mallii-bUUUU! bicho, nós vamos pra M-a-li-buuuuuu!
- é isso aí, cara!
- é isso aí, bicho!
flípflap. ou, flapflap.
não podiam me dizer simplesmente que não tinham cigarro. precisavam me impíngir aquele lance de religião: cigarro era pra gente careta. estavam indo pra Malibu, pra algum lugar onde iam "ficar numa boa", curtindo um pouco de erva. faziam lembrar, em certo sentido, essas velhinhas paradas pelas esquinas, vendendo "0 Atalaia". essa turma toda que vai de LSD, STP, maconha, heroína, haxixe, e remédio pra tosse, sofre da comichão d`O Atalaia: você tem que estar na nossa, cara, senão sifu, tá fora. esse lance é permanente e, pelo visto, uma OBRIGAÇÃO com quem usa esses baratos. não admira que a toda hora vão em cana - não sabem ser discretos - com o que lhes dá prazer; têm que APREGOAR que estão por dentro. e, o que é pior, tendem a ligar isso com a Arte, o Sexo, com o ambiente de Protesto. o Deus do Ácido deles, Leary, lhes diz: "desistam da luta. me sigam." aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra 5 pratas por cabeça de quem quiser ouvir ele falar. depois chega Ginsberg, junto com ele. e proclama que Bob Dylan é um grande poeta. autopropaganda dos que ganham manchetes posando de maconheíro. América.

mas mudemos de assunto, porque isso também já é outra história. este negócio, do jeito que eu conto, e do jeito que é, tem braços à beça e pouca cabeça. mas, voltando aos rapazes que estão na crista da onda, os cucas de maconha. a linguagem que usam. chocante, bicho. tem tudo a ver. o pedaço. maneiro. bacana. cafona. careta. embalo. de repente. xará. coroa. por aí, e não sei mais o quê. já ouvi essas mesmas frases - ou seja qual for o nome que se queira empregar - quando tinha 12 anos em 1932. deparar com tudo isso de novo, 25 anos depois, não contribui muito pra se simpatizar com o usuário ' ainda mais quando considera que são o que pode haver de atual. grande parte dessa gíria se deriva do pessoal que usava drogas da pesada, a turma da colher e da agulha, e também dos velhos músicos negros das orquestras de jazz. a terminologia dos que estão de fato "por dentro" já mudou, mas os pretensos modernosos, como dupla a quem pedi cigarro - esses ainda falam no estilo de 1932.

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

Aos fazedores de poemas rápidos e modernos


é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou-
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim-
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

Buk - Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski