26 de abr. de 2011

2 de abr. de 2011

462-0614

agora recebo muitas chamadas de telefone.
todas iguais.
"é Charles Bukowski, o escritor?"
"sim," eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha escrita.
alguns deles são escritores ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam conversar,
não podem acreditar que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar que agora mesmo me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas e dizendo. "Jesus Jesus Jesus, de novo não!"
eles não podem acreditar que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o jogo.
Não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma dessas coisas.
é por isso que meu nome está na lista.

Buk - o amor é um cão dos diabos.

1 de abr. de 2011

Barata

a barata rastejou sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando
e ao virar minha cabeça
ela enfinou o traseiro numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerososol
e disparei e disparei oe finalmente a barata saiu e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro da banheira e fiquei assistindo à sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a na descarga. era tudo o que se tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e Western temos que seguir fazendo isso.
dizem que algum dia essa tribo herdará
a terra
mas faremos com que esperem mais alguns meses.

Buk - O amor é um cão dos diabos.

Meus camaradas


aquele ali ensina
aquele outro vive com a mãe.
e aquele outro é sustentado por um pai alcoólatra e rubicundo
dono de um cérebro de mutuca.
aque ali toma boletas e vem sendo sustentado pela mesma mulhar há 14 anos.
aquele outro escreve um romance a cada dez dias
msa ao menos paga o próprio aluguel.
aquele ali vai de lugar em lugar
dormindo em sofás, bebndo e proferindo seus discursos.
aquele ali imprime seus próprios livros numa máquina copiadora.
aquele outro vive num vestiário abandonado num hotel de Hollywood.
aquele parece saber como arranjar tostão depois de tostão, sua vida é um preenher de formulários.
aquele ali simplesmente é rico e vive nos melhores lugares enquanto bate às melhores portas.
aquele lá tomou café com Willian Carlos
Willian.
e aquele ali ensina.
e aquele ali ensina.
e aquele ali publica livros de auto-ajuda sobre como fazer as coisas e usa uma voz dominadora e cruel.
eles estão em todo o lugar.
todos são escritores.
e quase todo escritor é um poeta.
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
poetas poetas poetas
a próxima vez que o telefone tocar será um poeta.
a próxima pessoa a bater à porta ser á um poeta.
aquele ali que ensina
e aquele outro vive com a mãe
e aquele lá está escrevendo a história de Ezra Pound.
oh, irmãos, somos as mais doentes e as piores criaturas da raça.

Buk - o amor é um cão dos diabos.

25 de mar. de 2011

Melancolia


A história da melancolia inclui todos nós.
a mim, eu me contorço em sujos lençóis
enquanto observo as paredes azuis e o nada.
acostumei-me tanto à melancolia que
a cumprimento como uma velha amiga.
Ficarei de luto por 15 minutos por ter perdido aquela ruiva,
digo isso aos deuses. eu faço isso e me sinto completamente mal.
completamente triste, então me levanto
LIMPO
embora nada tenha sido resolvido.
é isso que consigo por chutar a bunda da religião.
eu deveria ter chutado a bunda da ruiva
onde seus miolos, seu pão e sua manteiga estão no…
Mas, não, eu tenho me sentido triste por tudo isso:
ter perdido a ruiva foi, somente, outra porrada que foi dada numa vida inteira
fracassada…
escuto os tambores no radio agora e forço um sorriso.
além da melancolia há algo de errado comigo.

Tradução de Alice Dias

Fonte: http://www.literaturaemfoco.com/?p=3123

De volta

Eu estava novamente em casa. Era ótimo. Recurvei-me sobre minha barriga. No Vietnã, os exércitos estavam lutando. Nos becos, os vagabundos mamavam em suas garrafas de vinho. Vi uma aranha escalando o peitoril da janela. Vi um jornal velho no chão. Havia uma foto de três garotas pulando uma cerca e mostrando muito das pernas. O lugar todo se parecia comigo e tinha meu cheiro. O papel de parede me conhecia. Era perfeito. Estava consciente de meus pés e meus cotovelos e meus cabelos. Não me sentia como se tivesse 45 anos de idade. Sentia-me como um maldito monge que recém houvesse recebido uma revelação. Sentia-me como se estivesse apaixonado por algo que fosse muito bom, mas não sabia exatamente o quê, exceto que estava ali, bem perto. Escutei todos os sons, os ruídos das motocicletas e dos carros. Ouvi os cães latindo. Pessoas rindo. Então dormi. Dormi e dormi e dormi. Enquanto uma planta olhava através da minha janela, enquanto velava meu sono. O sol seguia sua labuta e a aranha ficou a rastejar por ali.

Buk - Ao sul de lugar nenhum.

14 de fev. de 2011

Henry Chinaski - Cartas na Rua


Henry Chinaski é um pobre diabo que vive bêbado pelas ruas de Los Angeles. Depois de passar por dezenas de subempregos em mais de uma dúzia de cidades dos EUA, se emprega nos correios como carteiro temporário para entregar cartões de natal. Moleza pra quem já havia trabalhado em matadouros. Depois passa a carteiro estagiário. Começa bem, mas quando é transferido para a agência Oakford, cujo encarregado é Jonstone, um carrasco merecidamente apelidado de Stone, começa o inferno para Hank. os estagiários ficavam esperando que algum efetivo não viesse trabalhar para receberem alguma rota e só assim fazerem jus a algum pagamento. Stone reservava as piores para Chinaski. Toda rota tinha uma armadilha que só os efetivos conheciam e não contavam. Foi perseguido por cães raivosos e madames loucas. Sempre chegava atrasado e Jonstone o colocava no relatório. Hank tinha uma companheira, Betty, mais louca e alcoólatra do que ele. Betty era 10 anos mais velha. Mas era pro rabo dela que ele voltava quando Stone o sacaneava e não lhe dava serviço. Bebia a noite inteira com Betty e ia pro trabalho invariavelmente de ressaca. O correio era um emprego seguro, mas penoso e muitas vezes desumano.

Alter Ego Henry Chinaski - Bukowski - Cartas na rua

31 de jan. de 2011

A Tela

Não suporto as lágrimas
havia algumas centenas de imbecis
em volta de uma ganso que tinha partido uma perna
enquanto decidiam
o que fazer
quando um polícia apareceu
e sacou seu revolver
e pronto, o assunto estava encerrado
exceto para uma mulher
que saiu correndo de sua barraca
grintando que tinham matado seu animal de estimação
mas o polícia agarrou o seu cinto
e disse-lhe
vai para o raio que te parta,
queixa-se ao presidente da república;
a mulher ficou chorando desconsoladamente
e eu não suporto as lágrimas.

Arrumei a minha tela
e fui para outro campo:
os filhos da mãe haviam estragado
a toda a paisagem.

Buk

24 de jan. de 2011

Sonho

Não ando dormindo bem ultimamente; mas é sobre isso, exatamente, que pretendo falar. É quando parece que vou pegar no sono que acontece. Eu disse “parece que vou pegar no sono” porque não passa disso. De uns tempos pra cá, tenho cada vez mais a impressão, a sensação, de que estou dormindo e, no entanto, no meu sonho eu sonho com meu quarto, que estou dormindo e que tudo está no mesmo lugar onde deixei quando fui pra cama. O jornal caído no chão, a garrafa de cerveja vazia em cima da cômoda, meu único peixinho dourado circulando devagar no fundo do aquário, todas essas coisas tão íntimas que parecem que já fazem parte de mim como o meu cabelo. E muitas vezes, quando NÃO estou dormindo, deitado na cama, olhando pras paredes, cochilando, esperando pra dormir, é freqüente me perguntar: ainda estou acordado ou já peguei no sono e sonho com meu quarto?

Tem acontecido muita coisa ruim ultimamente. Mortes; cavalos correndo mal; dor de dente; hemorragias, sem falar noutras coisas que não convém mencionar. Volta e meia me vem a sensação de que, ora, pior é que não pode ficar. E aí eu penso, bem, pelo menos você tem onde morar. Não anda aí pela rua. Houve tempo em que não me importava com isso. Hoje acharia insuportável. São poucas as coisas que ainda acho suportáveis. Já fui alfinetado, lancetado, é, inclusive bombardeado… com tanta frequência que simplesmente não agüento mais; não conseguiria enfrentar outro fogo cerrado.

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

21 de jan. de 2011

O grande rebu da maconha

uma noite destas fui a uma reunião - em geral, o tipo do troço chato pra mim. sou, essencialmente, um solitário, um velho beberrão que prefere beber sozinho, talvez com a única esperança de escutar um pouco de Mahler ou Stravínsky no rádio. mas lá estava eu no meio da turba enlouquecedora. não vou explicar o motivo, pois isso já é outra história, talvez mais longa, e mais confusa ainda, porém, ao ficar ali parado, tomando meu vinho, ouvindo o The Doors, os Beatles ou o Airplane, misturados com todo aquele vozerio, percebi que precisava de um cigarro. estava a zero. como sempre, aliás. aí vi aqueles 2 rapazes por perto, braços caídos e oscilando; os corpos frouxos, feito gansos; pescoços girando; os dedos das mãos à vontade - em suma, pareciam feitos de borracha, um elástico que se esticava, puxava e partia. cheguei perto:
- ei, caras, um de vocês tem cigarro?
foi o que bastou pra borracha começar a saltar. fiquei ali parado, olhando, enquanto se entusiasmavam, estalando os dedos e batendo palmas.
- aqui ninguém fuma, bicho! BICHO, a gente não ... fuma.
- não, bicho, a gente não fuma, não desse tipo, não, bicho.
flipflop. flipflap. que nem borracha.
- nós vamos pra M-a-li-buuu, cara! é, nós vamos pra Mallii-bUUUU! bicho, nós vamos pra M-a-li-buuuuuu!
- é isso aí, cara!
- é isso aí, bicho!
flípflap. ou, flapflap.
não podiam me dizer simplesmente que não tinham cigarro. precisavam me impíngir aquele lance de religião: cigarro era pra gente careta. estavam indo pra Malibu, pra algum lugar onde iam "ficar numa boa", curtindo um pouco de erva. faziam lembrar, em certo sentido, essas velhinhas paradas pelas esquinas, vendendo "0 Atalaia". essa turma toda que vai de LSD, STP, maconha, heroína, haxixe, e remédio pra tosse, sofre da comichão d`O Atalaia: você tem que estar na nossa, cara, senão sifu, tá fora. esse lance é permanente e, pelo visto, uma OBRIGAÇÃO com quem usa esses baratos. não admira que a toda hora vão em cana - não sabem ser discretos - com o que lhes dá prazer; têm que APREGOAR que estão por dentro. e, o que é pior, tendem a ligar isso com a Arte, o Sexo, com o ambiente de Protesto. o Deus do Ácido deles, Leary, lhes diz: "desistam da luta. me sigam." aí aluga um auditório aqui na cidade e cobra 5 pratas por cabeça de quem quiser ouvir ele falar. depois chega Ginsberg, junto com ele. e proclama que Bob Dylan é um grande poeta. autopropaganda dos que ganham manchetes posando de maconheíro. América.

mas mudemos de assunto, porque isso também já é outra história. este negócio, do jeito que eu conto, e do jeito que é, tem braços à beça e pouca cabeça. mas, voltando aos rapazes que estão na crista da onda, os cucas de maconha. a linguagem que usam. chocante, bicho. tem tudo a ver. o pedaço. maneiro. bacana. cafona. careta. embalo. de repente. xará. coroa. por aí, e não sei mais o quê. já ouvi essas mesmas frases - ou seja qual for o nome que se queira empregar - quando tinha 12 anos em 1932. deparar com tudo isso de novo, 25 anos depois, não contribui muito pra se simpatizar com o usuário ' ainda mais quando considera que são o que pode haver de atual. grande parte dessa gíria se deriva do pessoal que usava drogas da pesada, a turma da colher e da agulha, e também dos velhos músicos negros das orquestras de jazz. a terminologia dos que estão de fato "por dentro" já mudou, mas os pretensos modernosos, como dupla a quem pedi cigarro - esses ainda falam no estilo de 1932.

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

Aos fazedores de poemas rápidos e modernos


é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou-
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim-
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

Buk - Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski

18 de jan. de 2011

Nova guerra


e pensar que, depois que eu me for,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.
cães andando, árvores balançando
ao vento
não deixarei tanto.
algo para ler, talvez.
um rebelde na estrada
devastada
Paris às escuras

Buk - Memorias de um velho safado.

3 de jan. de 2011

Showbiz

Eu não aguento isto, você não aguenta isto e nós não vamos compreender isto então não aposte nisto ou nem mesmo pense nisto simplesmente levante-se da cama a cada manhã
lave-se
barbeie-se
vista-se
saia de casa
e aceite isto porque fora isso tudo o que resta é suicídio e loucura
então você simplesmente não pode ter muitas expectativas
você não pode nem ter expectativas
então o que você faz é trabalhar a partir de uma modesta
remuneração mínima como quando você sai
fique contente que seu carro
possivelmente esteja lá
e se está ... fique contente pelos pneus
não estarem furados
então você entra e se ele
dá a partida ... você dá a partida.
e este é o filme mais desgraçado
que você já viu porque você está nele...
cachê baixo e 4 bilhões de críticos
e o período mais longo de exibição
que você já desejou é um dia.

[extraído do livro The Last Night of the Earth Poems (1992), Black
Sparrow Press]

Origem: http://www.traducoesdeumvelhosafado.blogspot.com
(mais uma das belas traduções do velho amigo Athos)

28 de dez. de 2010

Lembrança


com um murro, aos 16 anos e ½,
derrubei meu pai,
um filho da puta cruel com mau hálito,
e não voltei para casa por um tempo, só vez por outra para batalhar um dólar com a querida mamãe.era 1937 e Los Angeles era uma grande Viena.

eu? Tenho 30 anos, a cidade está quatro ou cinco vezes maior
mas tão acabada quanto e as garotas ainda cospem quando
passo, outra guerra se cria por outra razão, e não consigo emprego agora pela mesma razão de outrora:
não sei fazer nada, não consigo fazer nada.

O coração que ri


A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.

9 de dez. de 2010

Splash

[...] isto não é um poema. Poemas são um tédio, eles te fazem dormir.
Estas palavras te arrastam para uma nova loucura.
Você foi abençoado, você foi atirado num
lugar que cega de tanta luz.
O elefante sonha com você agora.
A curva do espaço se curva e ri.
Você já pode morrer agora. Você já pode morrer do jeito que as pessoas deveriam morrer: esplêndidas, vitoriosas, ouvindo a música,
sendo a música, rugindo, rugindo, rugindo.

Buk - Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.

30 de nov. de 2010

As filas

"Não suportava ajuntamentos perto de mim, e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida para esperar seja lá o que fosse. E é nisto que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa.
Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: “as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica". Não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança – passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com esse horror que é a vida.”

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

29 de nov. de 2010

2 amigos


Não tenho certeza da idade exata em que nos conhecemos (talvez 9 ou 10) mas Moises era um dos meus primeiros amigos de verdade: judeu e muito quieto e meu segundo amigo de verdade era o Ruivo - ele tinha um braço bom e parte do outro: a parte inferior de seu braço direito era puro esmalte branco com uma luva de couro marrom sobre os dedos artificiais.
Moises sumiu primeiro. Meu pai me informou sobre ele: apontou para uma garagem rua abaixo uma grande estrutura amarela e branca com portas metálicas: "teu amigo Moises foi flagrado lá dentro fazendo algo numa menina de 5 anos. pegaram ele"

A amizade com o Ruivo durou mais. durante todo o verão nadávamos juntos na piscina publica. ele tinha que remover o braço artificial quando saia mergulando com seu um-braço-e-meio, o braço curto terminando logo abaixo do cotovelo. parecia como se tivesse minúsculos mamilos na extremidade ou talvez parecessem minúsculos dedos.

Os outros garotos o provocavam por causa do meio-braço e seus minúsculos dedos mas eu era um mau elemento e disse a eles nos termos mais precisos que a piscina pertencia a todos e que deixassem ele nadar, merda, senão...

isso às vezes nos trouxe problemas depois: uma turma nos seguiria até em casa
a casa dele ou a minha e mais de uma vez ficariam lá fora gritariam para nós
até que saíssemos e os encontrássemos no gramado da frente. eu não era tão bom quanto o Ruivo. ele era muito bom com seu braço branco puro de luva marrom, eram geralmente 4 ou 5 contra 2 mas o Ruivo simplesmente derrubava um após o outro
balançando aquele braço duro como um porrete eu ouvia o som dele contra os crânios
e então haveria garotos caídos no gramado com as mãos nas cabeças e isso só me faria mais maldoso e eu pegaria um ou dois por mim mesmo e logo todos menos o Ruivo e eu teriam sumido da rua. íamos nadar na piscina pública juntos com mais e mais freqüência. parecia sempre haver novos garotos sempre mais novos garotos que não conseguiam se tocar como a coisa funcionava. eles apenas não entendiam que nós só queríamos nadar e ser deixados em paz. voltando ao Moisés eu não tenho certeza mas, infelizmente, de certo modo ele deve ter tido algumas partes amputadas também. nunca o vimos de novo mas sua mãe com certeza sabia como cozinhar eu me lembro de todos aqueles aromas deliciosos de comida pela casa. eu nunca vi a mãe do Ruivo cozinhar nada.

BUK - Livro : o hino da tormenta

Contribuição mais do que querida da amiga MEL MENDES - http://melmendesprofile.blogspot.com/

28 de nov. de 2010

Bebedos


Os bêbedos das três horas da manhã, em todos os Estados Unidos, fitavam as paredes, depois de terem finalmente desistido. Não era preciso ser bêbedo para se machucar, para cair sob a mira de uma mulher; mas a gente podia se machucar e se tornar um bêbedo. Você podia pensar por algum tempo, sobretudo quando era jovem, que estava com sorte, e às vezes estava mesmo. Mas havia todo tipo de médias e leis em ação das quais você nada sabia, mesmo quando imaginava que tudo ia indo bem. Uma noite, uma quente noite veranil de quinta-feira, você se tornava o bêbedo, você estava lá fora, sozinho num quarto de aluguel barato, e por mais que tivesse visto isso antes, não diantava, era até pior, porque você tinha pensando que não teria de enfrentar aquilo de novo. A única coisa que podia fazer era acender mais um cigarro, servir outra bebida, examinar as paredes descascadas em busca de olhos e lábios. O que homens e mulheres se faziam uns aos outros estava além da compreensão.
Buk - numa fria

26 de nov. de 2010

SEM CHANCE DE AJUDA


há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores tempos
nós saberemos
nós saberemos mais que nunca
há um lugar no coração que nunca será preenchido
e nós iremos esperar e esperar
nesse lugar.

Buk - Essa loucura roubada que não desejo a ninguem a não ser a mim mesmo amém

25 de nov. de 2010

CORCUNDA

eu fui amado por muitas mulheres e, para uma vida corcunda
isso é uma sorte
tantos dedos adentrando meus cabelos
tantos abraços apertados
tantos sapatos atirados sem cuidado no tapete do meu
quarto.
tantos corações em busca
agora tão nítidos em minha memória que caminharei para a morte, lembrando
tenho sido tratado melhor do que deveria ser - não pela vida em geral
nem pelo mecanismo das coisas
mas pelas mulheres
mas houveram mulheres que me deixaram plantado no quarto sozinho
encurvado
com as mãos no saco pensando
por quê por quê por quê por quê?
mulheres vão para homens que são porcos
mulheres vão para homens com almas mortas
mulheres vão para homens que trepam pessimamente
mulheres vão para sombras de homens
mulheres vão
vão porque precisam ir
pela ordem das coisas.
as mulheres sabem mais
mas muitas vezes escolhem na confusão e desordem
elas podem curar com seu toque
elas podem matar o que tocam e eu estou morrendo
mas não estou morto ainda.

BUK - ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUÉM A NÃO SER A MIM MESMO AMÉM

22 de nov. de 2010

Seja bondoso

sempre nos pedem para compreender o ponto de vista
do próximo não importa quão antiquado tolo ou obnóxio.
pedem para enxergar com bondade
todos os seus erros suas vidas desperdiçadas,
principalmente se eles são velhos.
mas envelhecer é tudo que nós fazemos.
eles envelheceram mal porque
viveram fora de foco, eles se recusaram a entender.
não é culpa deles? é culpa de quem? minha?
me pedem para esconder deles meu ponto de vista
por medo de seus medos.
envelhecer não é crime
mas a vergonha de uma vida deliberadamente desperdiçada entre tantas
vidas deliberadamente desperdiçadas
é.

[extraído do livro The Last Night of the Earth Poems (1992), Black Sparrow Press]
Origem da Tradução: http://www.traducoesdeumvelhosafado.blogspot.com/

16 de nov. de 2010

Foi isso que matou Dylan Thomas

... Mas não consigo deixar de pensar nos anos em quartos solitários, quando as únicas pessoas que batiam à minha porta eram as senhorias cobrando o aluguel atrasado ou o FBI. Vivia com ratos e camundongos e vinho, meu sangue escorria pelas paredes em um mundo que não conseguia compreender e ainda não compreendo. Em vez de levar a vida que eles levaram, eu passava fome. Fugia para dentro de minha própria mente e me escondia. Fechava todas as cortinas e ficava olhando para o teto. Quando saía, era para ir a um bar onde eu mendigava por bebida, andava a esmo, apanhava nos becos de homens bem-alimentados e confiantes, de homens idiotas e com vida confortáveis. Bem, ganhei algumas lutas, mas so porque era louco. Fiquei anos sem mulher, vivia de manteiga de amendoim e pão amanhecido e batatas cozidas. Eu era o idiota, o estúpido, o louco. Queria escrever, mas a máquina de escrever estava sempre penhorada. Então eu desistia e bebia.

Buk - Ao sul de lugar nenhum.

15 de nov. de 2010

Aprisionado

No inverno caminhando em meu teto, meus olhos do tamanho de luzes de poste. Tenho quatro patas como um rato mas lavo minhas roupas íntimas - barbeado e de ressaca e de pau duro e sem advogado.
Tenho cara de esfregão, canto canções de amor e carrego aço.
Preferiria morrer a chorar. Não suporto a matilha, não posso viver sem ela.
Inclino minha cabeça contra o refrigerador branco e quero gritar como o último lamento de vida para todos sempre mas sou maior do que as montanhas.

Buk - O amor é um cão dos diabos.

11 de out. de 2010

Tão louco como sempre fui.

Bêbado e escrevendo poemas as 3 da manhã o que importa agora é mais uma boceta apertada antes que a luz se apague bêbado e escrevendo poemas as 3h15 da manhã algumas pessoas me dizem que sou famoso.
o que estou fazendo sozinho bêbado e escrevendo poemas as 3h18 da manha?
Sou tão louco quanto sempre fui eles não entendem que não parei de me pendurar pelos calcanhares da janela do 4 andar - eu ainda o faço agora mesmo aqui sentado ao escrever estas linhas estou pendurado pelos calcanhares vários andares acima: 68, 72, 101, a sensação é a mesma: implacável, banal e necessária.
Aqui sentado bêbado e escrevendo poemas as 3h24 da manhã.

Buk - o amor é um cão dos diabos

Sozinho com todo mundo

A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma, e as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos.
A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne.
De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular.
Ninguém nunca encontra o par ideal.
As lixeiras da cidade se completam,
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais se completa.

Bukowski - O amor é um cão dos diabos

29 de set. de 2010

A morte está fumando meus charutos

Sabe como é: estou aqui mais uma vez bêbado
ouvindo Tchaikovsky no rádio.
Jesus, eu o ouvi há 47 anos atrás
quando eu era um escritor que passava fome
e aqui está ele novamente
e agora faço um pouco de sucesso como escritor
e a morte está andando para cima e para baixo
neste quarto fumando meus charutos
tomando tragos do meu vinho
enquanto Tchaik toca ininterruptamente
a Pathétique, tem sido uma jornada e tanto
e qualquer sorte que tive foi porque rolei o dado
direito: passei fome pela minha arte, passei fome para
ganhar malditos 5 minutos, 5 horas,5 dias---
eu só queria escrever;
fama, dinheiro, não importava:
eu queria escrever e eles me queriam em uma puncionadeira,
na linha de montagem de uma fábrica
queriam que eu trabalhasse no estoque em uma
loja de departamentos.
bem, diz a morte, enquanto caminha, eu vou te pegar de qualquer maneira
não importa o que você tenha sido: escritor, motorista de táxi, cafetão,açougueiro,
pára-quedista, eu vou te pegar...
tudo bem querida, digo a ela.
nós bebemos juntos agora enquanto uma da manhã transforma-se em
duas da manhã e somente ela sabe o momento, mas eu a
trapaceei: consegui meus
malditos 5 minutos
e muito mais.

[extraído do livro The Last Night of the Earth Poems (1992), Black Sparrow Press]

Origem no blog http://www.traducoesdeumvelhosafado.blogspot.com/

24 de ago. de 2010

Livros e Romances do velho Buk no Brasil


Romances:
- Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983. (edição original 1971)
- Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985. (ed. original 1975)
- Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1978)
- Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1982)
- Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990. (ed. original 1989)
- Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995. (ed. original 1995)

Contos, Poesia, Não Ficção
- Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea. Porto Alegre: L&PM, 2008.
- O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.
- Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006.
- Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
- Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
- Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
- Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
- O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
- A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
- Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
- N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
- Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
- Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
- Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
- Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.

23 de jul. de 2010

Cerveja

Não sei quantas garrafas de cerveja consumi esperando que as coisas melhorasse.
Não sei quanto vinho e uísque e cerveja, principalmente cerveja consumi depois de rompimentos com mulheres
Esperando o telefone tocar
Esperando o som dos passos, e o telefone nunca toca
Antes que seja tarde demais e os passos nunca chegam
Antes que seja tarde demais.
Quando meu estômago já está saindo pela boca elas chegam frescas como flores de primavera:
"Mas que diabos você está fazendo? vai levar três dias antes que você possa me comer!"
A mulher é durável, vive sete anos e meio a mais que o homem, bebe pouca cerveja porque sabe como ela é ruim para a aparência.
Enquanto enlouquecemos elas saem, dançam e riem com caubóis cheios de tesão.
Bem, há a cerveja, sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja e quanto você pega uma, as garrafas caem através do fundo úmido do saco de papel rolando, tilinando, cuspindo cinza molhada e cerveja choca, ou então os sacos caem às 4 horas da manhã produzindo o único som em sua vida.
Cerveja, rios e mares de cerveja, cerveja, cerveja, cerveja.
O rádio toca canções de amor enquanto o telefone permanece mudo e as paredes seguem paradas e estáticas, e a cerveja é tudo o que há.
Bukowski - O amor é um cão dos diabos.

4 de mai. de 2010

Vida e Obras do velho CHARLES BUKOWSKI

Origem(ns): Andernach
País de nascimento: Alemanha
Data de nascimento: 16 de Agosto de 1920
Data de falecimento: 9 de Março de 1994 (73 anos)
Gênero(s): Poeta, Romancista
Website: http://bukowski.net/

Henry Charles Bukowski Jr (16 de Agosto de 1920, Andernach – 9 de Março de 1994, Los Angeles) foi um poeta, contista e romancista alemão. Sua obra obscena e estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinaram gerações de jovens à procura de uma obra com a qual pudessem se identificar.

Nascido na Alemanha, filho de um soldado americano, se mudou ainda criança para os EUA com seus pais. Foram primeiro para Baltimore em 1923, mas depois disso se mudaram para o subúrbio de Los Angeles. Foi uma criança atormentada por um pai extremamente autoritário e frustrado, que descontava os seus problemas o espancando pelos motivos mais fúteis. Quando atingiu a adolescência, somou-se a este problema o fato de ter o rosto e toda a parte superior do corpo literalmente tomada por inflamações que o obrigaram a submeter-se a tratamentos médicos no hospital público de sua cidade. Na escola, a situação também não é das melhores, tendo poucos amigos e sendo sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol.

A falta de carinho familiar e a humilhação de ter um rosto deformado obrigam-no a fugir. Abandonou a escola para só voltar um ano depois. Neste meio tempo descobriu duas coisas que o ajudaram a tornar a sua vida suportável: o álcool e os livros. Teve problemas com alcoolismo e trabalhou em empregos temporários em várias cidades americanas, como carteiro, frentista e motorista de caminhão apesar de ter estudado jornalismo sem nunca se formar. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos mas seu primeiro livro somente foi publicado 20 anos depois em 1955. Em 1962 estreou na prosa caracterizada pela descrição de sua vida pessoal. Escreveu, entre outros livros, "Mulheres", "Hollywood" e "Cartas na Rua".

Iniciou assim uma vida errante, bebendo em excesso e escrevendo alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de trabalho eram enviados para as mais diversas publicações literárias independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. A editora da revista Harlequin, Barbara Frye, no entanto, estava convencida de que Bukowski era um gênio. Começaram a se corresponder e, em determinado momento, Frye declarou que nenhum homem nunca se casaria com ela. Bukowski respondeu simplesmente: "Eu me casarei". Casaram-se logo depois de se conhecerem pessoalmente. Mas tão rápido quanto se conheceram, separaram-se.

Até este momento, Charles Bukowski era apenas um poeta iniciante - apesar de ter quase quarenta anos. Mas foi a partir de sua separação que começou a surgir a imagem de Bukowski que o tornaria famoso, seu alterego Henry Chinaski. Jim Christy, autor do livro The Buk Book, disse em uma vez que "ele havia sido um vagabundo, um imprestável, um proletário, um bêbado; bem, que fosse. Claro, outros trabalharam o mesmo território, mas o que diferenciava Bukowski do resto deles - os Knut Hamsun, Jack London, Maxim Gorky e Jim Tully - era que Bukowski era engraçado." Trabalhando esta imagem, Bukowski conseguiu criar um mito ao seu redor.

Tendo Ernest Hemingway e Fiódor Dostoiévski como principais influências. Com o escritor russo ele aprendeu: "Quem não quer matar seu pai"? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. "Ele" é o cara sacana, "Ele" é o responsável por seu sofrimento, "Ele merece" morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho "Buk". Essa capacidade de transformar o dia-a-dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transforma-las em arte é a mágica de Bukowski.

Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles Bukowski, alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua obra. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do "Velho Safado", como ficou conhecido no mundo inteiro. E Howard Sounes é prova disso. O jornalista inglês assina "Charles Bukowski - Vida e loucuras de um Velho Safado" (Ed. Conrad); biografia considerada uma das mais completas e sérias do gênero.

Funcionário dos Correios até os 49 anos, Bukowski sonhou a vida inteira em ser reconhecido pelo seu trabalho como escritor. Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos mais rotineiros e transformava o cotidiano em obra de arte. Inconformado e, sempre, com uma garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma. Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens "nada fictícios" ficavam sabendo das peripécias do poeta bêbado após a publicação dos textos.

Sua obra surtiu tanto efeito que alguns de seus contos e romances acabaram sendo adaptados para o cinema por alguns diretores. Inclusive, o próprio Bukowski recebeu diversos convites para escrever argumentos, apesar de assumir que nunca gostou muito de filmes.

Bukowski tem sido erroneamente identificado com a Geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra nunca mostraram essa inclinação. A cidade de Los Angeles, suas ruas e atmosfera, foram sua principal influência, tratando de histórias com temas simples, misturando por exemplo corridas de cavalo, prostitutas e música clássica. Ele escreveu mais de 50 livros, sem contar milhares de publicações baratas.

Uma de suas principais atividades durante anos foi a leitura de suas poesias em universidades e eventos culturais. Sua leitura debochada às vezes provocava escândalos e brigas com a platéia, algumas delas registradas em áudio. Já nos anos 1980, Bukowski desfrutou de certa fama, convivendo com artistas e tornando-se uma celebridade. Ele morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de Março de 1994, e em seu túmulo se lê "Don't Try", "Nem Tente" em português.

Com o tempo, apareceram alguns herdeiros seus na literatura, principalmente na questão do estilo violento e despudorado de sua linguagem, e que acabou inclusive tendo desdobramentos no cinema. Mas poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sarjeta, fazendo dela, sua fonte de inspiração. De todo aquele inferno imundo e fedido, Bukowski fez o seu paraíso.

Está presente em albuns, músicas, letras, entre outros de muitas bandas, entre as quais: Anthrax, Apollo 440, Leftover Crack, Bad Radio (uma das bandas de começo de carreira de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam), Red Hot Chili Peppers, entre muitas outras. O vocalista Ville Valo da banda Finlandesa HIM e o escritor Felipe Pipoko, têm uma imagem de Bukowski tatuada no seus respectivos braços.

O escritor Maycon Luzan se ispira totalmente em Bukowski em seus contos e sempre afirma que depois de Bukowski começou a encontrar o verdadeiro sentido da literátura.

Livros publicados no Brasil
Romances
Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983. (edição original 1971)
Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985. (ed. original 1975)
Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1978)
Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1982)
Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990. (ed. original 1989)
Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995. (ed. original 1995)

Contos, Poesia, Não Ficção
Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea. Porto Alegre: L&PM, 2008.
O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.
Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006.
Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.

2 de mai. de 2010

Lembra do Pearl Harbor?

Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim.
Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes do futebol, bem nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos-da-mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsiveis e sem graça quando eu deitasse de costas.
Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidades deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta.
Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa.
Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queri isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Bukowski - Ao sul de lugar nenhum

29 de abr. de 2010

Política


No City Colleger de Los Angeles, logo antes da Segunda Guerra Mundial, eu me fazia de nazista. Mal sabia distinguir Hitler de Hércules, mas não me importava nem um pouco. O negócio é que ficar sentado na sala de aula ouvindo todos aqueles patriotas discursando sobre como deveríamos atravessar o oceano e acabar com tudo aquilo me entediava profundamente. Decidi fazer oposição. Não me dava sequer ao trabalho de ler sobre Adolf, simplesmente vomitava qualquer coisa que me parecia maléfica ou insana.
A verdade é que, de fato, eu não tinha nenhuma crença política. Era apenas uma maneira de me libertar daquilo tudo. Você sabe, algumas vezes, se um homem não acredita no que está fazendo, ele pode fazer um trabalho muito mais interessante, porque ele não está emocionalmente envolvido em sua Causa. [...] Eu levantava durante a aula e gritava qualquer coisa que me viesse à cabeça. Normalmente tinha alguma relação com a Raça Superior, o que me parecia ser bem engraçado. Não falava diretamente dos Negros e dos Judeus, porque via que eles eram tão pobres e perdidos quanto eu era. [...] Ficava surpreso ao perceber a quantidade de pessoas que me ouviam e quão poucas entres elas, se é que alguma, ao menos questionava minhas afirmações.
Bukowski – Ao sul de lugar nenhum.

Medo

[...] Eu atravessava uma espécie de inferno pessoal. Estava muito nervoso, atacado dos nervos: um barulhinho qualquer e eu saltava de susto. Eu tinha medo de ir dormir: pesadelo depois de pesadelo, cada um mais terrível do que o anterior. Ficava tudo bem se eu fosse dormir completamente bêbado, ai não acontecia nada, mas se fosse dormir meio bêbado ou, pior ainda, sóbrio, então os sonhos começavam, sem falar que eu nunca tinha certeza se estava dormindo ou se as coisas estavam acontecendo dentro do quarto porque, quando dormia, sonhava com o quarto inteiro, os pratos sujos, os ratos, as paredes que se enrugavam por causa da umidade, as calcinhas carimbadas que alguma puta deixou no chão, a torneira vazando, a lua como um projétil lá fora, carros cheios de pessoas sóbrias e bem-alimentadas, faróis brilhando pela janela, tudo, tudo aquilo, e eu em alguma espécie de canto escuro, escuro demais, sem ajuda, sem motivo, sem motivo algum, em um canto escuro, suando, na escuridão e na sujeira, em meio ao fedor da realidade, o fedor de tudo: aranhas, olhos, senhorias, calçadas, bares, prédios, grama, a ausência de grama, nada daquilo pertencia a você. Os elefantes co-de-rosa nunca apareciam, mas sim diversos homenzinhos com gestos selvagens ou então um homem enorme e aterrador, que vem estrangulá-lo ou afundar seus dentes na parte de trás do seu pescoço, você deitado de costa chafurdando em seu próprio suor, incapaz de se mover, essa coisa preta, fedorenta e cabeluda está parada ali, em cima de você, em você, em você.

Quando não era isso, era eu ficar sentado durante dias, horas de medo incomunicável, o medo se abrindo no meio do peito como um grande botão em flor, não se podia analisar o que estava acontecendo, imaginar o porquê de tudo aquilo, o que tornava as coisas ainda piores. Horas sentado em uma cadeira no meio de um quarto passam rápidas e impactantes. Cagar ou mijar são esforços tremendos, sem sentido; pentear o cabelo ou escovar os dentes: atos ridículos ou insanos. Cruzar um mar de chamas. Ou servir água em um copo para beber: parece que você não tem direito mesmo a um ato simples como esse. Decidi que estava louco, imprestável, e isso fez com que eu me sentisse sujo. Fui a biblioteca e tentei encontrar livros sobre o que fazia com que as pessoas se sentissem do jeito que eu estava me sentindo, mas os livros não estava lá, ou, se estavam, eu não podia compreendê-los. Ir até a biblioteca não era nada fácil: todos pareciam tão confortáveis, os bibliotecários, os leitores, todos menos eu. Tive dificuldade até mesmo para usar o banheiro da biblioteca... os vagabundos lá dentro, as bichas me olhando mijar, todos pareciam mais forte do que eu... despreocupados e seguros. Continuei saindo de casa para caminhar, atravessava a rua e subia uma escada em caracol de um prédio de concreto onde eram estocadas milhares de caixas de laranjas. Uma placa no telhado de outro prédio dizia JESUS SALVA, mas nem Jesus nem as laranjas valiam o esforço de subir aquelas escadas e entrar naqueles prédios de concreto. Eu não podia deixar de pensar que ali era o meu lugar, dentro de uma tumba de concreto.
Bukowski - ao sul de lugar nenhum

1 de abr. de 2010

O mundo sem mim

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.
Bukowski.

30 de mar. de 2010

Uísque escôces

Sentia-me frustrado, tudo me derrotava. [...] Eu começava a ficar deprimido. Minha vida não estava indo para lugar algum. Precisava de alguma coisa, o brilho das luzes, glamour, alguma porra. [...] Me sentia esquisito. Como se nada tivesse importância. [...] o jogo me cansava. Eu perdera a garra. A existência não era apenas absurda, era simplesmente trabalho pesado. Pense em quantas vezes a gente veste as roupas de baixo em toda a vida. Era surpreendente, era repugnante, era estúpido. [...]

Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, ai vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimista pessimista. [...]

Portanto, lá estava eu deprimido de novo. Voltei para casa, entrei e abri uma garrafa de uísque escocês. Voltava ao meu velho amigo,uísque escocês com água. O uísque escocês é uma bebida de que a gente não gosta imediatamente. Mas depois que se acostuma, ele opera uma mágica. Acho nele um calor especial que o simples uísque não tem. De qualquer modo, eu estava deprimido e me sentia numa cadeira com a garrafa ao lado. Não liguei a televisão, descobri que quando a gente está mal essa filha da puta só faz a gente se sentir pior. Uma cara chata após a outra, parece não ter fim. Uma procissão interminável de idiotas, alguns famosos. Os cômicos não tinham graça e os dramas era de quarta classe. Não havia muita alternativa para mim, exceto o escocês.

Bukowski - Pulp

17 de mar. de 2010

Embuste


"Uma vez que você percebe que tudo é um embuste, você fica esperto e passa a sangrar e queimar seus semelhantes. Eu ergueria um império sobre as carcaças e vidas destroçadas de homens, mulheres e crianças indefesas - eu os atropelaria. Eu lhes daria uma bela lição."
Charles Bukowski.

Capas de alguns livros







- A saideira e mais uma.
- Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo.
- Tempo de voo para lugar algum.
- A toa em San Pedro.

16 de mar. de 2010

Nem tente


Lápide do velho Charles Bukowski - Frase: Don't try (Nem tente). - 1920 - 1994.

15 de mar. de 2010

Caixao da Criação

O caixão da criação, a capacidade de sofrer e resistir,
isso é nobreza, amigo. A capacidade de sofrer e resistir por uma ideia, um sentimento, um caminho, isso é arte, meu amigo. A capacidade de sofrer e resistir quando o amor falha, isso é o inferno, velho amigo. Nobreza, arte e inferno,
vamos falar sobre arte por uns instantes. Destino é a minha estropiada filha. Repara, é difícil, eu contra eles,com eles.
Kafka, deixa-me entrar!
Hemingway acautela-te!
Hegel, tens piada!
Cervantes, queres dizer que escreveste esse romance aos 80 anos? Grandes escritores são gente indecente, eles vivem injustamente guardando a melhor parte para o papel. Bons seres humanos salvam o mundo para que patifes como eu possamos continuar a criar arte, tornar-nos imortais.
Se leres isto depois de eu ter morrido há muito significa que consegui. Portanto escritores do mundo agora é a vossa vez de maltratar a vossa mulher abusar dos vossos filhos amarem-se a vós próprios viver dos fundos de outrém ter aversão a toda a arte criada antes e durante o vosso tempo, e ter aversão ou mesmo odiar a humanidade um a um ou em massa. Patifes, mesmo que leiam isto depois de ter morrido há muito esqueçam-me. Eu provavelmente não era assim tão bom.
Charles Bukowski

26 de fev. de 2010

Frases diversas do Buk II


Matei quatro moscas enquanto esperava. Porra, a morte estava em toda parte. Homem, pássaro, animal, réptil, roedor, inseto, peixe, não tinham a mínima chance. Tudo carta marcada. Eu não sabia o que fazer. Fiquei deprimido. Sabe, eu vejo um garoto de entregas no supermercado empacotando minhas compras, depois o vejo enfiando a si mesmo na própria cova, junto com o papel higiênico, a cerveja e o peito de frango.

Não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar idéias – nem almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Quero ficar dentro do bloco, sem ser perturbado.

Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança, nao estava presente na humanidade.

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou me odiavam vão subitamente me aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades. Será nojento. Será feito um filme sobre a minha vida. Me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.

[...] como é que você vai poder cagar com uma rolha cristã de 2000 metros enfiada no cu?

Nenhuma mulher fode do mesmo jeito que a outra e é isso que mantém o interesse do homem, contribuindo para que ele caia na armadilha.

Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

10 de fev. de 2010

Várias frases do velho Buk

"As vezes sou amargo mas no geral o sabor tem sido doce. é apenas que tenho medo de dize-lo. É como quando sua mulher diz, fala que me ama e você não consegue. "

"O mundo me roubou muitas horas e anos com suas ocupações chatas e rotineiras"

"Há sempre uma mulher para te salvar de outra e assim que ela o salva está pronta para destuí-lo"

"que dias penosos foram aqueles, ter a vontade e a nescecidade de viver, mas não a habilidade"

"O dinheiro só traz dois inconvenientes: quando é demais e quando há de menos"

" A gente começa a salvar a humanidade salvando uma pessoa de cada vez, todo o resto é delírio romântico ou político".

"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam até a sua morte."

“[...] Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças. E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples e nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar [...]”

"Uma esposa rosnando no portão é mais do que qualquer homem pode suportar. "

" Quando bebo, o mundo segue sendo um filho da puta mas pelo menos ele tira as mãos do meu pescoço."

Charles Bukowski.

4 de fev. de 2010

Pobre


Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Charles bukowski.

1 de dez. de 2009

Deixe isso te envolver

Deixe isso te envolver, paz ou felicidade
Deixe isso te envolver...
Quando era jovem achava que essas coisas eram bobas, naturais. Era sangue ruim, mente torta, mal-educado. Era duro como granito, olhava de esguelha de dia. Não acreditava em nenhum homem e especialmente em nenhuma mulher.Ia vivendo o inferno em quartinhos, quebrei coisas, joguei coisas, andei através do vidro, maldito. Desafiei tudo, fui continuamente expulso, preso, dentro e fora de briga, dentro e fora da razão. Mulher era coisa só pra sacanear e insultar, não tinha amigos. Mudei de emprego e de cidade, detestava feriados, crianças, história, jornais, museus, avós, casamento, cinema, aranhas, lixeiros, sotaque inglês, espanha, frança, itália, nogueira e cor de laranja, álgebra me irava, ópera me punha doente, charles chaplim era falso e flores eram pra frescos. Paz e felicidade pra mim eram símbolos de inferioridade, inquilinas da fraqueza e de publicitários. Mas como eu segui com isso, minhas brigas nos becos, meus anos suicidas, meu trânsito por inúmeras mulheres - gradualmente começou a me ocorrer que eu não era diferente de ninguém, era igual, eles eram todos cheios de ódio, envernizado com banais ressentimentos, os homens com quem briguei nos becos tinham coração de pedra todos acotovelavam-se, avançando, logrando por ninharias, a mentira era arma e o enredo estava pronto, a escuridão era a ditadora. Prudentemente, permiti a mim mesmo me sentir bem por uns tempos. Tive momentos de paz em quartos baratos apenas fixando os olhos nos botões de alguma roupa, ou escutando a chuva no escuro, menos precisava melhor me sentia. Talvez outra vida tivesse me esgotado. Poucas vezes achava graça levando alguém no papo, ou trepando no corpo de alguma pobre bêbada que passou a vida mergulhada em mágoas. Nunca pude aceitar vida como aquela, nunca pude engolir todos aqueles venenos, mas houve partes tênues, mágicas partes, abertas, pra resposta. Me emendei não sei quando, data, hora, tudo isso mas a mudança ocorreu. Alguma coisa em mim relaxou, acalmou. não mais tive que provar que eu era homem, não precisei provar nada, comecei a ver as coisas: xícaras de café alinhadas atrás do balcão do café, ou um cachorro caminhando ao longo da calçada, ou o modo como o camundongo parou em cima da cômoda com seu corpo, suas orelhas, seu nariz, parado, pedaço de vida agarrada nela mesma e seus olhos me fitando e eles eram belos. assim – aquilo se foi. Comecei a me sentir bem, comecei a me sentir bem nas piores situações e havia muitas delas. Como disse o chefe atrás da mesa, ele estava pra me despedir, eu havia faltado por muitos dias. Ele estava vestido de terno, gravata, óculos, ele disse: “tenho que te mandar embora”. tá certo, eu disse. ele fez o que devia fazer, ele tem mulher, casa, filhos, despesas, muito provavelmente uma amante. Eu o desculpo ele estava surpreso saí pelo inflamado pôr-do-sol. O dia inteiro era meu temporariamente em todo caso. Todo mundo está engasgado com todo mundo, todos se sentem irados, ludibriados no troco, logrados, todos desanimados, desiludidos. dei boas-vindas a tentativas de paz, farrapos de felicidade. abracei aquela coisa, como números quentes, saltos altos, seios, cantoria, as obras. (não me entenda mal, é alguma coisa com otimismo estrábico que sobreolha todos os problemas básicos só por amor a si mesmo - isso é a cura e a doença) a faca tocou minha garganta de novo, quase voltei pro papo furado mas quando os bons momentos voltaram eu não lutei contra como se fosse adversário do beco. Me deixei levar, me deleitei neles, saudei boas-vindas ao lar. uma vez até olhando no espelho me achando feio, agora gostei do que vejo, quase bonito, sim, um pouco destruído e raivoso, com cicatrizes, inchado, expressão bizarra, mas no geral, não muito mal, quase bonito, pelo menos melhor do que aquelas de estrelas de cinema com caras de bumbum de bebê, e afinal descobri o real sentimento dos outros, não anunciados, como recentemente, como esta manhã, quando ia partir, na seqüência, vi minha mulher na cama, apenas a forma de sua cabeça lá (não esquecendo séculos de vivos e de mortos e de moribundos, as pirâmides, Mozart morreu mas sua música ainda está lá no quarto, ervas crescendo, terra girando, ”toteboard” esperando por mim) vi a forma da cabeça da minha mulher, ela tão calma, me doía por sua vida, apenas existindo ali debaixo das cobertas. beijei-a na testa, fui pra escada, fui pra fora, fui pro meu maravilhoso carro, coloquei o cinto de segurança, acionei a marcha, senti calor na ponta dos dedos, pus o pé no acelerador, e fui pro mundo mais uma vez, dirigi colina abaixo, além das casas cheias e vazias de gente, vi o carteiro, buzinei, ele acenou pra mim.

Charles Bukowski

Poema


é preciso muito desespero, descontentamento e desilusão para escrever alguns bons poemas. Não é para todos nem escrevê-los ou mesmo lê-los.

Charles Bukowski

17 de nov. de 2009

Textos Autobiográficos


BUKOWSKI - TEXTOS AUTOBIOGRÁFICOS
Charles Bukowski
editado por John Martin
Tradução de Pedro Gonzaga

30 de out. de 2009

Morrendo Bêbado.

Minha garrafa fica no armário
como um anão esperando para ferir minhas preces
bebo e tusso em uma sinfonia
há luz no sol e aves enlouquecidas em todo lugar pelos confins do mar revolto, bebo intensa e calamente agora
bebo ao paraíso e a morte e a mentira do amor.
[...] Quando minhas mãos pálidas deixarem cair
a última caneta em um quarto barato, eles vão me achar lá
e nunca saberão meu nome, minha intensão nem
o valor de minha fuga.
Charles Bukowski.

Várias vidas

Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas.
Charles Bukowski.