21 de mai. de 2019





"vai passar, babaca, tudo passa,
é tudo uma piada rindo da sua cara.”

Charles Bukowski - Amor é tudo que nós dissemos que não era

DARLENE



As fotos das strippers estavam expostas atrás de um vidro junto à porta de entrada.
Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota no guichê parecia melhor do que as fotos.
Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oito fileiras de
poltronas. As três primeiras estavam lotadas.
Tive sorte. O filme já havia terminado, e a primeira stripper já estava no palco. Darlene. A
primeira geralmente era a pior, uma veterana decadente que não conseguiria, no mais das vezes,
nada além de uns números de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tínhamos
Darlene para a abertura. Era provável que alguma das dançarinas tivesse sido assassinada, ou
estivesse menstruada, ou tivesse tido uma crise histérica, explicando assim a nova oportunidade
para Darlene de um número solo.
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao
fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era
como um milagre – o suficiente para levar um homem à loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo – suas panturrilhas e pernas
pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançava e nos olhava com olhos de
maquiagem extremamente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar – ter novamente o seu
número no programa. Eu estava com ela. À medida que o zíper descia, mais e mais do seu corpo
ficava à mostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne
branca. Logo ela estava apenas com seu sutiã cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos,
falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguiu dançando e se agarrou à cortina do palco, que estava puída e coberta por
uma grossa camada de pó. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de
músicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes.
Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo. Darlene realmente se entregou
para a cortina. As luzes rosadas passaram de súbito a púrpuras. A banda veio com tudo. Ela
pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trás, sua boca se abriu.
Então ela se endireitou e voltou dançando para o centro do palco. De onde eu estava
sentado, podia escutá-la cantar para si mesma por sobre a música. Agarrou seu sutiã cor-de-rosa
e o arrancou, enquanto um cara três filas abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a
tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela
começou a se mexer com doçura. Então o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os
músicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo
de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-os para a gente, seus olhos reluziam com a
plenitude do sonho, seus lábios úmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu
imenso rabo para nós. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O
canhão de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espécie de sol. O quarteto seguia
botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles
olharam. Podíamos ver os pêlos de sua buceta através de sua segunda pele. A banda realmente
fazia sua bunda vibrar.
E eu não conseguia ficar de pau duro.

20 de mai. de 2019




De vez em quando só de vez em quando
é que você encontra alguém com uma
presença e eletricidade que combina com a tua
no ato

e nessa hora geralmente é uma estranha

foi há 3 ou 4 anos atráseu andava pela
Sunset Boulevard em direção a Vermont
quando a uma quadra de distância notei uma
mulher vindo em minha direção

havia algo em sua postura e no seu andar
que me atraiu.
conforme nos aproximamos aumentou a intensidade.

de repente eu sabia toda a sua história:
ela viveu a vida toda com homens
que nunca a conheceram de verdade.

quando ela chegou perto quase fiquei tonto.
podia ouvir os seus passos quando ela chegou perto.

olhei em seu rosto.
ela era tão bonita quanto eu pensava que ela seria.

conforme passamos nossos olhos transaram e se amaram e
cantaram um para o outro

e então ela passou por mim.
fui andando sem olhar pra trás.

aí quando olhei pra trás ela tinha sumido.

o que se deve fazer num mundo onde quase tudo
que vale a pena ter ou fazer é impossível?

entrei num café e resolvi que se algum dia a encontrasse
de novo eu falaria
"por favor, escuta, só preciso falar com você..."

nunca mais a vi de novo
nunca mais a verei.

a rigidez de nossa sociedade silencia o coração
de um homem  e quando você silencia o coração
de um homem você deixa ele por fim
apenas com um pênis.

Charles Bukowski, no livro Maldito deus arrancando esses poemas da minha cabeça

7 de mai. de 2019



"À noite, fiquei bebendo e tentando adivinhar como é que eu ainda estava vivo, como é que o esquema funcionava."

Buk

6 de mai. de 2019



"Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. 
O que quer que fosse preciso para estabelecer essa
confiança, não estava presente  na humanidade.

Buk.





"Às vezes você acha bondade no meio do inferno"
Buk.

3 de mai. de 2019






Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda;
não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse.
E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa.
Tentei me matar com gás e não consegui.
Mas tinha outro problema.
Levantar da cama.
Sempre tive ódio disso.
Vivia afirmando: as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo.
Acharam que estava louco.
Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança - passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.
Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã.
Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais dificíl de abrir mão.
Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem.
É, eu sei que isso não é uma atitude simpática.
Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol.
Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.


25 de abr. de 2019




"Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista."

Bukowski

18 de abr. de 2019

17 de abr. de 2019






“Onde quer que a multidão vá, corra na outra direção. Eles estão sempre errados. Por séculos estiveram errados e sempre estarão errados.”

Buk


11 de abr. de 2019

Os aliens






Talvez você não acredite mas há pessoas
que passam a vida sem o menor
atrito ou agonia.
Eles se vestem bem, comem bem, dormem bem
estão satisfeitos com a vida em família.
Eles têm momentos de melancolia
mas no geral não são incomodados
e, frequentemente, sentem-se
muito bem quando morrem é uma morte fácil, geralmente,
dormem. talvez você não acredite porém essas pessoas existem.
mas eu não sou uma delas
ah não, eu não sou uma delas
eu nem chego perto de ser
uma delas mas elas estão
lá e eu estou
cá!




Buk.

2 de abr. de 2019

28 de mar. de 2019




"Eu conhecia uma porção de mulheres. Pra que sempre mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Era excitante um caso novo, mas também dava um trabalhão. O primeiro beijo e a primeira trepada tinham uma certa dramaticidade. As pessoas são interessantes no início. Aos poucos, porém, todos os defeitos e loucuradas botam as manguinhas de fora, é inevitável. Começo a significar cada vez menos pras pessoas, e elas pra mim."

Velho Safado Buk em Mulheres

25 de mar. de 2019





"Me canso fácil dos preciosos intelectos que precisam cuspir diamantes toda vez que abrem as suas bocas. Eu me canso de ficar batalhando por cada espaço de ar para o espírito. É por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar para a minha caverna."



Charles Bukowski, Notas de um velho safado 

19 de mar. de 2019



Deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
ou você cansou de ficar bêbado
e a erva não funciona mais,
e não me refiro a passar
para o haxixe ou cocaína,
eu me refiro a um lugar para ir além
da morte que está esperando
ou do amor que não funciona mais.

deveria haver algum lugar para onde ir
quando você não consegue mais dormir
além de um aparelho de TV ou um filme
ou comprar um jornal ou ler um romance.

é não ter esse lugar para onde ir
que cria as pessoas agora nos hospícios
e os suicídios

e suponho que aquilo que a maioria das pessoas faz
quando não há mais lugar algum para onde ir
é ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa
que dificilmente as satisfaça,
e esse ritual tende a aplainá-las
até que consigam prosseguir de algum modo
mesmo sem esperança.

essas caras que você vê todos os dias nas ruas
não foram criadas
inteiramente sem
esperança: seja generoso com elas:
assim como você
elas não escaparam.

BUKOWSKI, -  As pessoas parecem flores finalmente.

19 de fev. de 2019

1 de fev. de 2019

29 de jan. de 2019


Às vezes, não há nenhum aviso. 
As coisas acontecem em segundos. 
Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. 
E as coisas continuam. Somos finos como papel. 
Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. 
E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. 
E não há nada que se possa fazer sobre isso. 
Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar 
por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a 
si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. 
Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.
Buk

26 de jan. de 2019


Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. 
Significava que a vida ia recomeçar e depois de se 
passar a noite inteira a dormir cria-se uma espécie 
de intimidade especial que fica muito mais difícil de largar. 
Sempre fui solitário. Desculpe-me, creio que não 
regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não 
fosse por uma ou outra fodidela, não me faria a 
mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. 
Eu sei que não é uma atitude simpática. 
Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol.
Afinal de contas, foram as pessoas que me tornaram infeliz.

Buk

2 de jan. de 2019

1 de mai. de 2017

24 de mar. de 2015

Pernas

Charles Bukowski


Tradução de Claudio Willer

Novos poemas do velho safado

ela chegou de táxi
completamente embriagada.
[...]
e lá estava eu
olhando-a [...]
estendida sobre a cama
a saia erguida bem alto.
eu mamei meu drinque
e então a segui até
a cama e ergui
sua saia mais alto ainda:
que vista
aquelas pernas gloriosas
descobertas e indefesas.
[...]
fizemos uma tamanha farra
e passamos por muita agonia juntos
por alguns anos
mas ela achou
a vida dura demais;
ela morreu
há 34 anos e
eu nunca vi
pernas como aquelas
desde então
e eu nunca
deixei de
procurar.

 Fonte:  http://www.lpm-blog.com.br/

24 de fev. de 2015

As razões de Bukowski


Não é de hoje que o velho safado Charles Bukowski é acusado de escrever obscenidades por puritanos e moralistas de dedo em riste. Em 1985, uma biblioteca pública de Nijmegen, na Holanda, decidiu retirar de suas prateleiras o livro Crônica de um amor louco, sob a alegação de que seu conteúdo seria “muito sádico, ocasionalmente fascista e discriminatório contra determinados grupos”. Por grupos, entendia-se mulheres, negros e gays. Bem politicamente incorreto como só Bukowski sabia ser.
Algum tempo depois, o Ministro Hans van den Broek entrou em contato com o autor para saber sua opinião sobre o ocorrido. Eis a resposta que só Bukowski daria:



Se o seu inglês não dá conta, aí vai a tradução feita pelo blog quadrinhos e etc.:
Caro Hans van den Broek:
Obrigado por sua carta contando-me da remoção de um dos meus livros da biblioteca Nijmegen. E que ele é acusado de discriminação contra negros, homossexuais e mulheres. E que é sádico por causa do seu sadismo.
A única coisa que temo discriminar é o humor e a verdade.
Se eu escrevo mal sobre os negros, homossexuais e mulheres, é por que os que eu conheci eram assim. Há muitos “males” – cães maus, má censura, há até mesmo “maus” homens brancos. Somente quando você escreve sobre “mau”, homens brancos não reclamam. E eu preciso dizer que há “bons” negros, “bons” homossexuais e “boas” mulheres?
No meu trabalho, como escritor, eu só fotografo, em palavras, o que vejo. Se eu escrever sobre “sadismo” é porque ele existe, eu não inventei isso, e se algum ato terrível ocorre no meu trabalho é porque essas coisas acontecem em nossas vidas. Eu não estou do lado do mal, como se o mal fosse algo inerente. Eu meus escritos, eu nem sempre concordo com o que ocorre, nem vou me afundar na lama por causa deles. Além disso, é curioso que as pessoas que gritam contra o meu trabalho parecem ignorar as partes dele que enaltecem a alegria, o amor e a esperança, e há essas partes. Meus dias, meus anos, minha vida viu altos e baixos, luzes e trevas. Se eu escrevesse só e continuamente da “luz” e nunca mencionasse o outro, então como artista eu seria um mentiroso.
A censura é a ferramenta daqueles que têm a necessidade de esconder realidades de si mesmos e dos outros. Seu medo é apenas a sua incapacidade de enfrentar o que é real, e eu não posso desabafar minha raiva contra eles. Eu só sinto essa tristeza terrível. Em algum lugar, na sua educação, eles estavam protegidos contra os fatos de nossa existência. Eles só foram ensinados a olhar de um jeito, quando existem muitas maneiras.
Eu não estou desanimado que um dos meus livros tenha sido caçado e retirado das prateleiras de uma biblioteca local. Em certo sentido, sinto-me honrado que eu escrevi algo que despertou essas pessoas de seu eu superficial. Mas fico magoado, sim, quando alguém tem seu livro censurado, pois esse livro, geralmente é um grande livro e há poucos desses, e ao longo dos tempos esse tipo de livro tem muitas vezes se tornado um clássico, e o que se acreditava chocante e imoral é hoje leitura obrigatória em muitas das nossas universidades.
Não estou dizendo que meu livro é um desses, mas eu estou dizendo que em nosso tempo, nesta época em que qualquer momento pode ser a último para muitos de nós, é condenadamente irritante e incrivelmente triste que ainda temos entre nós a pequenez, as pessoas amargas, os caçadores de bruxas e os declamadores contra a realidade. No entanto, estes também pertencem a nós, eles são parte do todo, e se eu não tenho escrito sobre eles, eu deveria, talvez o faça, e isso é suficiente.
que todos nós possamos ficar melhor juntos,
seu,
Charles Bukowski


Fonte:  http://www.lpm-blog.com.br/?p=12547

18 de dez. de 2014

Algo cheira mal




Levarei séculos pra tirar as Hepburns e os críticos do caminho, e isso é que é o mais triste, é mais do que triste: as nossas vidas mal chegam a um século, e o que nos mata não são os Hitlers e o s Nixons, mas os intelectuais, os poetas, os acadêmicos, os filósofos, os professores, os liberais, todos os nossos amigos - ou, melhor, seus amigos.
Sempre gostei mais das conversas dos caras da prisão do que das dos caras da universidade; acho que os caras das ferrovias têm bem mais colhões e luz e bem menos tédio do que aqueles que ganham 400.000 dólares por semana pra uma temporada de um mês em Vegas. Por que isso? Não sei, acho que nem Deus pode responder. Só sei que fomos enganados por séculos, e isso vai longe, até Cristo cheira mal, Platão cheira mal, e não estou falando de seus sovacos.
Acho que tudo que podemos fazer é tirar uma foto, esperar e cair fora.

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.


16 de dez. de 2014

Dirigindo Bêbado






 Eu diria que uma das teorias de Prevenção ao Crime é prevenir o crime antes de ele acontecer. Em outras palavras, um homem pode ser punido se dirige bêbado não porque tenha infligido algum dano a outra pessoa e/ou propriedade, mas porque ele é capaz de fazê-lo. E também sou capaz de presumir que a linha que separa o está bêbado do não está bêbado é bastante tênue e que muitas vezes esta linha está muito mais próxima da sobriedade. E ainda que um homem consiga provar, novamente segundo os parâmetros deles, que não estava bêbado, o dano já terá ocorrido, pois ele teve de pagar a fiança e os custos com advogado, sem falar no massacre sobre seus nervos; e a depressão, a preocupação, a surpresa e a perda de tempo também não poderão ser reparadas.
Em outras palavras, por seguir a teoria de que um motorista bêbado possa, em probabilidade, infligir dano e/ou dor, ele acaba preso e multado pesadamente, pois é condenado pelo mal que poderia ter feito. Bem, vamos estender agora esta teoria a outras áreas da vida ativa e já veremos que toda criatura humana deveria ser presa porque cada uma delas pode ser capaz de cometer algum tipo de crime, em maior ou menor grau, contra a sociedade.
Vamos analisar agora o caso de um motorista bêbado que não tenha infligido nenhuma dor/perda – embora ele mesmo tenha sofrido na carne a dor e a perda imposta pela lei sob o nome de justiça. Em outras palavras, a lei inflige dor onde antes não havia dor nenhuma. Além da multa e da cadeia, há ainda a perda da habilitação ou mesmo do emprego desse homem, e muitas vezes se torna difícil encontrar um novo emprego em função a sua “ficha suja”.
Se pretendermos viver num mundo melhor (e quem é suficientemente sofisticado para não desejar algo assim?), a eliminação das dores desnecessárias é um bom começo. Querem dar umas boas risadas? Querem saber o que eu acho que os policiais deveriam fazer com os bêbados? Deveriam leva-los para casa em vez de manda-los para a cadeia. Enfiem os bebuns inveterados debaixo das cobertas, arrumem uma saideira e digam para ficar em casa o resto da noite. Ridículo? Por quê? Pago meus impostos para ser assistido, não molestado. 

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.

15 de dez. de 2014

Loucos e desajustados






Estou aqui sentado, bêbado, me perguntando onde e como estarei amanhã. O cortiço não é lugar para um homem que deseja a privacidade de seus pensamentos. Dizem que sou um poeta honesto e que manejo o pincel com destreza, e recebo cartas perfumadas de mulheres distantes, mas estou pronto para os corvos que se voltam contra o sol da minha razão, enquanto escuto Rachmaninoff no rádio preciso jarreterar amanhã, digo a vocês que somos todos loucos e desajustados e que os figurões da universidade, que ensinam poesia das janelas empoeiradas de um campus tranquilo, não sabem nada a respeito destas paredes, ou das senhorias de South Hollywood, ou dos rotos desgastados no cortiço, onde as palavras de Rimbaud ou Rilke significam menos do que um centavo, onde todo o amor da humanidade e a vida valem menos do que rolos de papel que nos fazem as vezes de lençóis, menos do que os ratos que nos conhecem e com quem dividimos os becos, nossas pequenas e mudas derrotas. 

Charles Bukowski – pedaços de um caderno manchado de vinho

26 de set. de 2014

Encurralado

(Tradução: Pedro Gonzaga)

bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra

ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…

ainda não, velho cão…
logo em breve.

agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”

“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”

“bem, não, mas agora…”

agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.

agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona

enquanto as sombras assumem
formas

combato retirando-me
lentamente

agora
minha antiga promessa
definha
definha

agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas

tem sido um belo
combate

ainda
é.

fonte: http://www.revistabula.com/835-os-10-melhores-poemas-de-charles-bukowski/

10 de set. de 2014

Auto-ajuda no estilo Bukowski

Auto-ajuda no estilo Bukowski (se é que isso é possível)


Que tal alguns conselhos de Charles Bukowski, esse escritor que sempre compartilhou seus pontos de vista e opiniões sem filtro. Em seus textos, o velho Buk forneceu uma gama abundante de dicas de como passar seus dias. O Beat Museum (Museu dedicado aos beats) compilou algumas de suas citações e, a partir delas, organizou dez conselhos valiosos para quem quer levar uma “kick-ass life” (uma vida fodida). Aí vai:

1. NÃO SE ACOMODE
“Eu quero o mundo inteiro ou nada.”
careta_bukdedo

2. AME A SI MESMO
“Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que eu posso encontrar.”
maquina beijo

3. ÀS VEZES, ENLOUQUEÇA
Essas pessoas que nunca enlouquecem devem levar uma vida, verdadeiramente, horrível.”
buk_caretinha

4. NÃO TENHA MEDO DA DOR
“Você tem que morrer algumas vezes antes de realmente viver.”
buk_melancolico

5. SEJA AUTÊNTICO
“É melhor fazer uma coisa maçante com estilo do que algo perigoso sem estilo.”
buk_flores

6. LEMBRE-SE DE QUE VOCÊ É MAIS FORTE DO QUE PENSA
As vezes você levanta da cama de manhã e pensa, eu não vou conseguir, mas então você ri por dentro lembrando todas as vezes que já sentiu isso.”
buk_roupao

7. NÃO TENHA MEDO DA MORTE
Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso, e falo com ela: ’oi gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto’.”
bukowskigrave

8. NÃO DESISTA OU NEM COMECE
“Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece.”
buk fusca

9. NÃO ESPERE SER TARDE DEMAIS
Existem coisas piores que estar sozinho, mas geralmente leva décadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais.”
buk_gato

10. NÃO LEVE A VIDA TÃO A SÉRIO
“Às vezes você só precisa mijar na pia.”
Buk feliz

Fonte: http://www.lpm-blog.com.br/?p=25033

 

4 de set. de 2014

O parceiro de Bukowski





MEU PARCEIRO

sentado sob esta luz
olhando para o Buda.
o Buda  ri
de mim
e de todas as coisas:
chegamos tão longe
e fomos a  lugar nenhum.
vivemos  muito e
tão pouco afinal.
o Buda está rindo.
o Buda é esta estátua de
porcelana diante
de mim  nesta noite.
enquanto os poemas
não chegam.

(De Miscelânea septuagenária, livro recém lançado de Bukowski que traz contos e poemas inéditos)

20 de ago. de 2014

As massas

 

 
Todas as pessoas solitárias, amargas e miseráveis que
se sentem menosprezadas, traídas pelas forças, elas
culpam a vida, as
circunstâncias, culpam os outros quando de fato
elas
são totalmente insossas, obedientes à sua falta de originnalidade,
covardes e plácidas, seguem se sentindo enganadas,
infestando a terra
com suas lamúrias, com seus ódios –
embotadas no centro de lugar nenhum, esses milhões
de erros
humanos, indo dia após dia e noite após noite através
de seus movimentos castrados,
acabam por ferir a própria terra, ferir todas as coisas,
este desperdício
o horror de todo esse
desperdício.

Buk. - MISCELÂNEA SEPTUAGENÁRIA: CONTOS E POEMAS - LPM