31 de ago de 2009

Circo de horrores

Fiquei cansado de ir aos bares e depois fiquei cansado até de dirigir até a loja de bebidas, comecei a encomendar por telefone. Eles me conheciam. Alguns tinham lido meus livros. Podia ouvi-los falando no fundo através do telefone, estavam discutindo sobre quem iria entregar o pedido, todos queriam entregar, eles queriam ver o circo de horrores: eu na porta com cabelo na cara, minha barriga de cerveja sob a camiseta, meus olhos vermelhos, minha barba por fazer, as garrafas no chão,  as mulheres. Eles queriam ver isso.
Bukowski - Vida desalmada

30 de ago de 2009

Darlene

As fotos das strippers estavam expostas atrás de um vidro junto à porta de entrada. Aproximei-me e comprei um ingresso. A garota do guichê parecia melhor do que as fotos. Naquele momento me restavam 38 centavos. Entrei no teatro escuro equipado com oitos fileiras de poltronas. As três primeiras estavam lotadas. Tive sorte. O filme já havia terminado, e a primeira stripper já estava no palco. Darlene. A primeira era a pior, uma veterana decadente que não conseguiria, no mais das vezes, nada além de uns números de bailado na segunda linha do coro. Seja como fosse, tinhamos Darlene para a abertura. [...]
Darlene, no entanto, era boa. Magra, mas peituda. Um corpo que lembrava um salgueiro. Ao fim daquelas costas esguias, no meio daquele corpo magro, brotava um enorme traseiro. Era como um milagre - o suficiente para levar um homem a loucura.
Darlene trajava um vestido negro de veludo, longo e muito justo - suas panturrilhas e pernas pareciam de um branco mortiço contra aquela negrura. Ela dançada e nos olhava com os olhos de maquiagem extremanente carregada. Era sua chance. Ela queria retornar - ter novamente o seu numero no programa. Eu estava com ela. Á medida que o ziper descia, mas e mais o seu corpo ficava a amostra, saltando para fora daquele sofisticado vestido de veludo negro, pernas e carne branca. Logo ela estava apenas com seu sutiã cor-de-rosa e uma tanga cheia de penduricalhos, falsos diamantes que balançavam e reluziam aos seus movimentos.
Darlene seguia dançando e se agarrou à cortina do palco, que estava puída e coberta por uma grossa camada de pó. Ela se agarrou ao pano, dançando no compasso que o quarteto de músicos impunha e sob a luz rosada dos holofotes. Começou a trepar com a cortina. A banda acelerou o ritmo.
Darlene realmente se entregou para a cortina. As luzes rosadas passaram de súbito a púrpuras. A banda veio com tudo. Ela pareceu chegar ao orgasmo. Sua cabeça se curvou para trás, sua boca se abriu. Então ela endireitou e voltou para o centro do palco. De onde eu estava sentado, podia escutá-la cantar para si mesma por sobre a música. Agarrou seu sutiã cor-de-rosa e o arrancou, enquanto um cara três fileiras abaixo acendia um cigarro. Agora restava apenas a tanga. Empurrou o dedo contra o umbigo e gemeu.
Darlene seguiu dançando no centro do palco. A banda tocava com mais sutileza. Ela começou a se mexer com doçura. Então o quarteto começou a esquentar a coisa novamente. Os músicos avançavam para o ato culminante; o baterista atacava o aro da caixa lembrando o fogo de uma metralhadora; eles pareciam extenuados, desesperados.
Darlene manipulou seus seios nus, mostrando-se para a agente, seus olhos reluziam com a plenitude do sonho, seus lábios úmidos e entreabertos. De repente, ela se voltou e balançou seu imenso rabo para nós. As contas tremularam e brilharam em um bailado louco e cintilante. O canhão de luz acompanhava a dança e os movimentos como uma espécie de sol. O quarteto seguia botando para quebrar. Darlene girava e girava. Ela lançou as contas para longe. Eu olhei, eles olharam. Podiámos ver os pêlos de sua buceta através de sua segunda pele. A banda realmente fazia sua bunda vibrar. E eu não conseguia ficar de pau duro.
Bukowski - Factótum

29 de ago de 2009

Mal-humorado

Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho e fazer com que as palavras tenham algum sentido. Já vejo o suficiente da humanidade nos hipódromos, nos supermercados, nos postos de gasolina, nas estradas, nos cafés etc. Não se pode evitar. Mas tenho vontade de me dar um chute na bunda quando vou a festas, mesmo que a bebida seja de graça. Nunca funciona comigo. Já tenho argila suficiente para brincar. As pessoas me esvaziam. Preciso sair para me reabastecer. Sou o que é melhor para mim, sentado aqui atirado, fumando um baseadinho e vendo as palavras brilharem na tela. Raramente encontro uma pessoa rara ou interessante. É mais que pertubador, é um choque constante. Está me tornando um maldito mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria é.
Bukowski - O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.

Resposta

Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora. Vá se foder, colega. E não gosto também de Tolstoi.
Charles Bukowski - O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.

28 de ago de 2009

Nada

Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo...
Charles Bukowski

27 de ago de 2009

Atração

"... Sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais e nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com outro. Contudo, pouco me importava..."
Charles Bukowski.

Manhã


Há alguma coisa em mim que não consigo controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca. No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura. E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me fazer seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda. Não me supreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos. Eles me alcamam. Eles me fazem sentir bem. Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso.
Charles Bukowski. - O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.


Nascido nisso.


Nascido assim nisso como o giz de faces sorridentes como a sra. Morte às gargalhadas, como as paisagens politicas dissolvidas, como o peixe oleoso cuspido fora de sua oleosa vítima.
Nos nascemos assim, nisso. Nos hospitais que são tão caros que são baratos para morrer, como advogados que cobram muito é mais barato pleitear a culpa num pais onde as cadeias estão cheias e os hospicios estão fechados, num lugar onde as massas elevam idiotas em herois ricos.
Nascido nisso, andando e vivendo dentro disso, morrendo por causa disso, castrado, corrompido, deserdado por causa disso. Os dedos se estenderam para um deus irresponsável, os dedos alcançaram a garrafa, a pilula, o poder.
Nos nascemos nessa triste linha de morte. Lá estará aberto e impunivel assassinato nas ruas, será armas e multidões passageiras, a terra será inútil, a comida terá um retorno mínimo, o poder nuclear será tomado por muitos, as explosões constinuarão balançando o mundo, homens radioativos comerão a carne dos homens radioativos, os corpos apodrecidos do homem e dos animais vão feder no vento da escuridão, e lá estará um bonito silêncio nunca ouvido.
Nascido fora disso, o sol escondido estará a esperado do próximo capítulo.
Buk.
Video no Youtube:

Pássaro Azul

Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele,e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te.
Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros e as putas e os empregados de bar e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro.
Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica escondido, queres arruinar-me? queres foder-me o meu trabalho? queres arruinaras minhas vendas de livros na Europa?
Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?
Charles Bukowski
Video no Youtube:

24 de ago de 2009

As pessoas interessantes.

"Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa (...) O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles mesmos me causem horror. E horror é uma gentileza."
Charles Bukowski - O capital saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.

21 de ago de 2009

Se vai tentar...

Se vai tentar siga em frente. Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.
Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...
A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.
Se vai tentar,Vá em frente. Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.
Charles Bukowski

19 de ago de 2009

Poema nos meus 43 anos

Terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida – careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho e feliz por ter um quarto. De manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro:
Juízes, carpinteiros, encanadores, médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi... E você se vira para o lado esquerdo pra pegar o sol nas costas e não direito nos olhos.
Bukowski - os 25 melhores poemas de charles bukowski

13 de ago de 2009

As pessoas apaixonadas

Sinto-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes susceptíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se até assassinas...
Buk - Mulheres