18 de dez de 2014

Algo cheira mal




Levarei séculos pra tirar as Hepburns e os críticos do caminho, e isso é que é o mais triste, é mais do que triste: as nossas vidas mal chegam a um século, e o que nos mata não são os Hitlers e o s Nixons, mas os intelectuais, os poetas, os acadêmicos, os filósofos, os professores, os liberais, todos os nossos amigos - ou, melhor, seus amigos.
Sempre gostei mais das conversas dos caras da prisão do que das dos caras da universidade; acho que os caras das ferrovias têm bem mais colhões e luz e bem menos tédio do que aqueles que ganham 400.000 dólares por semana pra uma temporada de um mês em Vegas. Por que isso? Não sei, acho que nem Deus pode responder. Só sei que fomos enganados por séculos, e isso vai longe, até Cristo cheira mal, Platão cheira mal, e não estou falando de seus sovacos.
Acho que tudo que podemos fazer é tirar uma foto, esperar e cair fora.

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.


16 de dez de 2014

Dirigindo Bêbado






 Eu diria que uma das teorias de Prevenção ao Crime é prevenir o crime antes de ele acontecer. Em outras palavras, um homem pode ser punido se dirige bêbado não porque tenha infligido algum dano a outra pessoa e/ou propriedade, mas porque ele é capaz de fazê-lo. E também sou capaz de presumir que a linha que separa o está bêbado do não está bêbado é bastante tênue e que muitas vezes esta linha está muito mais próxima da sobriedade. E ainda que um homem consiga provar, novamente segundo os parâmetros deles, que não estava bêbado, o dano já terá ocorrido, pois ele teve de pagar a fiança e os custos com advogado, sem falar no massacre sobre seus nervos; e a depressão, a preocupação, a surpresa e a perda de tempo também não poderão ser reparadas.
Em outras palavras, por seguir a teoria de que um motorista bêbado possa, em probabilidade, infligir dano e/ou dor, ele acaba preso e multado pesadamente, pois é condenado pelo mal que poderia ter feito. Bem, vamos estender agora esta teoria a outras áreas da vida ativa e já veremos que toda criatura humana deveria ser presa porque cada uma delas pode ser capaz de cometer algum tipo de crime, em maior ou menor grau, contra a sociedade.
Vamos analisar agora o caso de um motorista bêbado que não tenha infligido nenhuma dor/perda – embora ele mesmo tenha sofrido na carne a dor e a perda imposta pela lei sob o nome de justiça. Em outras palavras, a lei inflige dor onde antes não havia dor nenhuma. Além da multa e da cadeia, há ainda a perda da habilitação ou mesmo do emprego desse homem, e muitas vezes se torna difícil encontrar um novo emprego em função a sua “ficha suja”.
Se pretendermos viver num mundo melhor (e quem é suficientemente sofisticado para não desejar algo assim?), a eliminação das dores desnecessárias é um bom começo. Querem dar umas boas risadas? Querem saber o que eu acho que os policiais deveriam fazer com os bêbados? Deveriam leva-los para casa em vez de manda-los para a cadeia. Enfiem os bebuns inveterados debaixo das cobertas, arrumem uma saideira e digam para ficar em casa o resto da noite. Ridículo? Por quê? Pago meus impostos para ser assistido, não molestado. 

Charles Bukowski - Pedaços de um caderno manchado de vinho.

15 de dez de 2014

Loucos e desajustados






Estou aqui sentado, bêbado, me perguntando onde e como estarei amanhã. O cortiço não é lugar para um homem que deseja a privacidade de seus pensamentos. Dizem que sou um poeta honesto e que manejo o pincel com destreza, e recebo cartas perfumadas de mulheres distantes, mas estou pronto para os corvos que se voltam contra o sol da minha razão, enquanto escuto Rachmaninoff no rádio preciso jarreterar amanhã, digo a vocês que somos todos loucos e desajustados e que os figurões da universidade, que ensinam poesia das janelas empoeiradas de um campus tranquilo, não sabem nada a respeito destas paredes, ou das senhorias de South Hollywood, ou dos rotos desgastados no cortiço, onde as palavras de Rimbaud ou Rilke significam menos do que um centavo, onde todo o amor da humanidade e a vida valem menos do que rolos de papel que nos fazem as vezes de lençóis, menos do que os ratos que nos conhecem e com quem dividimos os becos, nossas pequenas e mudas derrotas. 

Charles Bukowski – pedaços de um caderno manchado de vinho