28 de dez de 2010

Lembrança


com um murro, aos 16 anos e ½,
derrubei meu pai,
um filho da puta cruel com mau hálito,
e não voltei para casa por um tempo, só vez por outra para batalhar um dólar com a querida mamãe.era 1937 e Los Angeles era uma grande Viena.

eu? Tenho 30 anos, a cidade está quatro ou cinco vezes maior
mas tão acabada quanto e as garotas ainda cospem quando
passo, outra guerra se cria por outra razão, e não consigo emprego agora pela mesma razão de outrora:
não sei fazer nada, não consigo fazer nada.

O coração que ri


A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.

9 de dez de 2010

Splash

[...] isto não é um poema. Poemas são um tédio, eles te fazem dormir.
Estas palavras te arrastam para uma nova loucura.
Você foi abençoado, você foi atirado num
lugar que cega de tanta luz.
O elefante sonha com você agora.
A curva do espaço se curva e ri.
Você já pode morrer agora. Você já pode morrer do jeito que as pessoas deveriam morrer: esplêndidas, vitoriosas, ouvindo a música,
sendo a música, rugindo, rugindo, rugindo.

Buk - Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.

30 de nov de 2010

As filas

"Não suportava ajuntamentos perto de mim, e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida para esperar seja lá o que fosse. E é nisto que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa.
Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: “as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica". Não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança – passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com esse horror que é a vida.”

Buk - Fabulário Geral do Delírio Cotidiano

29 de nov de 2010

2 amigos


Não tenho certeza da idade exata em que nos conhecemos (talvez 9 ou 10) mas Moises era um dos meus primeiros amigos de verdade: judeu e muito quieto e meu segundo amigo de verdade era o Ruivo - ele tinha um braço bom e parte do outro: a parte inferior de seu braço direito era puro esmalte branco com uma luva de couro marrom sobre os dedos artificiais.
Moises sumiu primeiro. Meu pai me informou sobre ele: apontou para uma garagem rua abaixo uma grande estrutura amarela e branca com portas metálicas: "teu amigo Moises foi flagrado lá dentro fazendo algo numa menina de 5 anos. pegaram ele"

A amizade com o Ruivo durou mais. durante todo o verão nadávamos juntos na piscina publica. ele tinha que remover o braço artificial quando saia mergulando com seu um-braço-e-meio, o braço curto terminando logo abaixo do cotovelo. parecia como se tivesse minúsculos mamilos na extremidade ou talvez parecessem minúsculos dedos.

Os outros garotos o provocavam por causa do meio-braço e seus minúsculos dedos mas eu era um mau elemento e disse a eles nos termos mais precisos que a piscina pertencia a todos e que deixassem ele nadar, merda, senão...

isso às vezes nos trouxe problemas depois: uma turma nos seguiria até em casa
a casa dele ou a minha e mais de uma vez ficariam lá fora gritariam para nós
até que saíssemos e os encontrássemos no gramado da frente. eu não era tão bom quanto o Ruivo. ele era muito bom com seu braço branco puro de luva marrom, eram geralmente 4 ou 5 contra 2 mas o Ruivo simplesmente derrubava um após o outro
balançando aquele braço duro como um porrete eu ouvia o som dele contra os crânios
e então haveria garotos caídos no gramado com as mãos nas cabeças e isso só me faria mais maldoso e eu pegaria um ou dois por mim mesmo e logo todos menos o Ruivo e eu teriam sumido da rua. íamos nadar na piscina pública juntos com mais e mais freqüência. parecia sempre haver novos garotos sempre mais novos garotos que não conseguiam se tocar como a coisa funcionava. eles apenas não entendiam que nós só queríamos nadar e ser deixados em paz. voltando ao Moisés eu não tenho certeza mas, infelizmente, de certo modo ele deve ter tido algumas partes amputadas também. nunca o vimos de novo mas sua mãe com certeza sabia como cozinhar eu me lembro de todos aqueles aromas deliciosos de comida pela casa. eu nunca vi a mãe do Ruivo cozinhar nada.

BUK - Livro : o hino da tormenta

Contribuição mais do que querida da amiga MEL MENDES - http://melmendesprofile.blogspot.com/

28 de nov de 2010

Bebedos


Os bêbedos das três horas da manhã, em todos os Estados Unidos, fitavam as paredes, depois de terem finalmente desistido. Não era preciso ser bêbedo para se machucar, para cair sob a mira de uma mulher; mas a gente podia se machucar e se tornar um bêbedo. Você podia pensar por algum tempo, sobretudo quando era jovem, que estava com sorte, e às vezes estava mesmo. Mas havia todo tipo de médias e leis em ação das quais você nada sabia, mesmo quando imaginava que tudo ia indo bem. Uma noite, uma quente noite veranil de quinta-feira, você se tornava o bêbedo, você estava lá fora, sozinho num quarto de aluguel barato, e por mais que tivesse visto isso antes, não diantava, era até pior, porque você tinha pensando que não teria de enfrentar aquilo de novo. A única coisa que podia fazer era acender mais um cigarro, servir outra bebida, examinar as paredes descascadas em busca de olhos e lábios. O que homens e mulheres se faziam uns aos outros estava além da compreensão.
Buk - numa fria

26 de nov de 2010

SEM CHANCE DE AJUDA


há um lugar no coração que nunca será preenchido
um espaço e mesmo nos melhores momentos
e nos melhores tempos
nós saberemos
nós saberemos mais que nunca
há um lugar no coração que nunca será preenchido
e nós iremos esperar e esperar
nesse lugar.

Buk - Essa loucura roubada que não desejo a ninguem a não ser a mim mesmo amém

25 de nov de 2010

CORCUNDA

eu fui amado por muitas mulheres e, para uma vida corcunda
isso é uma sorte
tantos dedos adentrando meus cabelos
tantos abraços apertados
tantos sapatos atirados sem cuidado no tapete do meu
quarto.
tantos corações em busca
agora tão nítidos em minha memória que caminharei para a morte, lembrando
tenho sido tratado melhor do que deveria ser - não pela vida em geral
nem pelo mecanismo das coisas
mas pelas mulheres
mas houveram mulheres que me deixaram plantado no quarto sozinho
encurvado
com as mãos no saco pensando
por quê por quê por quê por quê?
mulheres vão para homens que são porcos
mulheres vão para homens com almas mortas
mulheres vão para homens que trepam pessimamente
mulheres vão para sombras de homens
mulheres vão
vão porque precisam ir
pela ordem das coisas.
as mulheres sabem mais
mas muitas vezes escolhem na confusão e desordem
elas podem curar com seu toque
elas podem matar o que tocam e eu estou morrendo
mas não estou morto ainda.

BUK - ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUÉM A NÃO SER A MIM MESMO AMÉM

22 de nov de 2010

Seja bondoso

sempre nos pedem para compreender o ponto de vista
do próximo não importa quão antiquado tolo ou obnóxio.
pedem para enxergar com bondade
todos os seus erros suas vidas desperdiçadas,
principalmente se eles são velhos.
mas envelhecer é tudo que nós fazemos.
eles envelheceram mal porque
viveram fora de foco, eles se recusaram a entender.
não é culpa deles? é culpa de quem? minha?
me pedem para esconder deles meu ponto de vista
por medo de seus medos.
envelhecer não é crime
mas a vergonha de uma vida deliberadamente desperdiçada entre tantas
vidas deliberadamente desperdiçadas
é.

[extraído do livro The Last Night of the Earth Poems (1992), Black Sparrow Press]
Origem da Tradução: http://www.traducoesdeumvelhosafado.blogspot.com/

16 de nov de 2010

Foi isso que matou Dylan Thomas

... Mas não consigo deixar de pensar nos anos em quartos solitários, quando as únicas pessoas que batiam à minha porta eram as senhorias cobrando o aluguel atrasado ou o FBI. Vivia com ratos e camundongos e vinho, meu sangue escorria pelas paredes em um mundo que não conseguia compreender e ainda não compreendo. Em vez de levar a vida que eles levaram, eu passava fome. Fugia para dentro de minha própria mente e me escondia. Fechava todas as cortinas e ficava olhando para o teto. Quando saía, era para ir a um bar onde eu mendigava por bebida, andava a esmo, apanhava nos becos de homens bem-alimentados e confiantes, de homens idiotas e com vida confortáveis. Bem, ganhei algumas lutas, mas so porque era louco. Fiquei anos sem mulher, vivia de manteiga de amendoim e pão amanhecido e batatas cozidas. Eu era o idiota, o estúpido, o louco. Queria escrever, mas a máquina de escrever estava sempre penhorada. Então eu desistia e bebia.

Buk - Ao sul de lugar nenhum.

15 de nov de 2010

Aprisionado

No inverno caminhando em meu teto, meus olhos do tamanho de luzes de poste. Tenho quatro patas como um rato mas lavo minhas roupas íntimas - barbeado e de ressaca e de pau duro e sem advogado.
Tenho cara de esfregão, canto canções de amor e carrego aço.
Preferiria morrer a chorar. Não suporto a matilha, não posso viver sem ela.
Inclino minha cabeça contra o refrigerador branco e quero gritar como o último lamento de vida para todos sempre mas sou maior do que as montanhas.

Buk - O amor é um cão dos diabos.

11 de out de 2010

Tão louco como sempre fui.

Bêbado e escrevendo poemas as 3 da manhã o que importa agora é mais uma boceta apertada antes que a luz se apague bêbado e escrevendo poemas as 3h15 da manhã algumas pessoas me dizem que sou famoso.
o que estou fazendo sozinho bêbado e escrevendo poemas as 3h18 da manha?
Sou tão louco quanto sempre fui eles não entendem que não parei de me pendurar pelos calcanhares da janela do 4 andar - eu ainda o faço agora mesmo aqui sentado ao escrever estas linhas estou pendurado pelos calcanhares vários andares acima: 68, 72, 101, a sensação é a mesma: implacável, banal e necessária.
Aqui sentado bêbado e escrevendo poemas as 3h24 da manhã.

Buk - o amor é um cão dos diabos

Sozinho com todo mundo

A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma, e as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos.
A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne.
De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular.
Ninguém nunca encontra o par ideal.
As lixeiras da cidade se completam,
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais se completa.

Bukowski - O amor é um cão dos diabos

29 de set de 2010

A morte está fumando meus charutos

Sabe como é: estou aqui mais uma vez bêbado
ouvindo Tchaikovsky no rádio.
Jesus, eu o ouvi há 47 anos atrás
quando eu era um escritor que passava fome
e aqui está ele novamente
e agora faço um pouco de sucesso como escritor
e a morte está andando para cima e para baixo
neste quarto fumando meus charutos
tomando tragos do meu vinho
enquanto Tchaik toca ininterruptamente
a Pathétique, tem sido uma jornada e tanto
e qualquer sorte que tive foi porque rolei o dado
direito: passei fome pela minha arte, passei fome para
ganhar malditos 5 minutos, 5 horas,5 dias---
eu só queria escrever;
fama, dinheiro, não importava:
eu queria escrever e eles me queriam em uma puncionadeira,
na linha de montagem de uma fábrica
queriam que eu trabalhasse no estoque em uma
loja de departamentos.
bem, diz a morte, enquanto caminha, eu vou te pegar de qualquer maneira
não importa o que você tenha sido: escritor, motorista de táxi, cafetão,açougueiro,
pára-quedista, eu vou te pegar...
tudo bem querida, digo a ela.
nós bebemos juntos agora enquanto uma da manhã transforma-se em
duas da manhã e somente ela sabe o momento, mas eu a
trapaceei: consegui meus
malditos 5 minutos
e muito mais.

[extraído do livro The Last Night of the Earth Poems (1992), Black Sparrow Press]

Origem no blog http://www.traducoesdeumvelhosafado.blogspot.com/

24 de ago de 2010

Livros e Romances do velho Buk no Brasil


Romances:
- Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983. (edição original 1971)
- Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985. (ed. original 1975)
- Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1978)
- Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1982)
- Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990. (ed. original 1989)
- Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995. (ed. original 1995)

Contos, Poesia, Não Ficção
- Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea. Porto Alegre: L&PM, 2008.
- O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.
- Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006.
- Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
- Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
- Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
- Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
- O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
- A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
- Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
- N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
- Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
- Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
- Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
- Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.

23 de jul de 2010

Cerveja

Não sei quantas garrafas de cerveja consumi esperando que as coisas melhorasse.
Não sei quanto vinho e uísque e cerveja, principalmente cerveja consumi depois de rompimentos com mulheres
Esperando o telefone tocar
Esperando o som dos passos, e o telefone nunca toca
Antes que seja tarde demais e os passos nunca chegam
Antes que seja tarde demais.
Quando meu estômago já está saindo pela boca elas chegam frescas como flores de primavera:
"Mas que diabos você está fazendo? vai levar três dias antes que você possa me comer!"
A mulher é durável, vive sete anos e meio a mais que o homem, bebe pouca cerveja porque sabe como ela é ruim para a aparência.
Enquanto enlouquecemos elas saem, dançam e riem com caubóis cheios de tesão.
Bem, há a cerveja, sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja e quanto você pega uma, as garrafas caem através do fundo úmido do saco de papel rolando, tilinando, cuspindo cinza molhada e cerveja choca, ou então os sacos caem às 4 horas da manhã produzindo o único som em sua vida.
Cerveja, rios e mares de cerveja, cerveja, cerveja, cerveja.
O rádio toca canções de amor enquanto o telefone permanece mudo e as paredes seguem paradas e estáticas, e a cerveja é tudo o que há.
Bukowski - O amor é um cão dos diabos.

4 de mai de 2010

Vida e Obras do velho CHARLES BUKOWSKI

Origem(ns): Andernach
País de nascimento: Alemanha
Data de nascimento: 16 de Agosto de 1920
Data de falecimento: 9 de Março de 1994 (73 anos)
Gênero(s): Poeta, Romancista
Website: http://bukowski.net/

Henry Charles Bukowski Jr (16 de Agosto de 1920, Andernach – 9 de Março de 1994, Los Angeles) foi um poeta, contista e romancista alemão. Sua obra obscena e estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinaram gerações de jovens à procura de uma obra com a qual pudessem se identificar.

Nascido na Alemanha, filho de um soldado americano, se mudou ainda criança para os EUA com seus pais. Foram primeiro para Baltimore em 1923, mas depois disso se mudaram para o subúrbio de Los Angeles. Foi uma criança atormentada por um pai extremamente autoritário e frustrado, que descontava os seus problemas o espancando pelos motivos mais fúteis. Quando atingiu a adolescência, somou-se a este problema o fato de ter o rosto e toda a parte superior do corpo literalmente tomada por inflamações que o obrigaram a submeter-se a tratamentos médicos no hospital público de sua cidade. Na escola, a situação também não é das melhores, tendo poucos amigos e sendo sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol.

A falta de carinho familiar e a humilhação de ter um rosto deformado obrigam-no a fugir. Abandonou a escola para só voltar um ano depois. Neste meio tempo descobriu duas coisas que o ajudaram a tornar a sua vida suportável: o álcool e os livros. Teve problemas com alcoolismo e trabalhou em empregos temporários em várias cidades americanas, como carteiro, frentista e motorista de caminhão apesar de ter estudado jornalismo sem nunca se formar. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos mas seu primeiro livro somente foi publicado 20 anos depois em 1955. Em 1962 estreou na prosa caracterizada pela descrição de sua vida pessoal. Escreveu, entre outros livros, "Mulheres", "Hollywood" e "Cartas na Rua".

Iniciou assim uma vida errante, bebendo em excesso e escrevendo alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de trabalho eram enviados para as mais diversas publicações literárias independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. A editora da revista Harlequin, Barbara Frye, no entanto, estava convencida de que Bukowski era um gênio. Começaram a se corresponder e, em determinado momento, Frye declarou que nenhum homem nunca se casaria com ela. Bukowski respondeu simplesmente: "Eu me casarei". Casaram-se logo depois de se conhecerem pessoalmente. Mas tão rápido quanto se conheceram, separaram-se.

Até este momento, Charles Bukowski era apenas um poeta iniciante - apesar de ter quase quarenta anos. Mas foi a partir de sua separação que começou a surgir a imagem de Bukowski que o tornaria famoso, seu alterego Henry Chinaski. Jim Christy, autor do livro The Buk Book, disse em uma vez que "ele havia sido um vagabundo, um imprestável, um proletário, um bêbado; bem, que fosse. Claro, outros trabalharam o mesmo território, mas o que diferenciava Bukowski do resto deles - os Knut Hamsun, Jack London, Maxim Gorky e Jim Tully - era que Bukowski era engraçado." Trabalhando esta imagem, Bukowski conseguiu criar um mito ao seu redor.

Tendo Ernest Hemingway e Fiódor Dostoiévski como principais influências. Com o escritor russo ele aprendeu: "Quem não quer matar seu pai"? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. "Ele" é o cara sacana, "Ele" é o responsável por seu sofrimento, "Ele merece" morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho "Buk". Essa capacidade de transformar o dia-a-dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transforma-las em arte é a mágica de Bukowski.

Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles Bukowski, alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua obra. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do "Velho Safado", como ficou conhecido no mundo inteiro. E Howard Sounes é prova disso. O jornalista inglês assina "Charles Bukowski - Vida e loucuras de um Velho Safado" (Ed. Conrad); biografia considerada uma das mais completas e sérias do gênero.

Funcionário dos Correios até os 49 anos, Bukowski sonhou a vida inteira em ser reconhecido pelo seu trabalho como escritor. Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos mais rotineiros e transformava o cotidiano em obra de arte. Inconformado e, sempre, com uma garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma. Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens "nada fictícios" ficavam sabendo das peripécias do poeta bêbado após a publicação dos textos.

Sua obra surtiu tanto efeito que alguns de seus contos e romances acabaram sendo adaptados para o cinema por alguns diretores. Inclusive, o próprio Bukowski recebeu diversos convites para escrever argumentos, apesar de assumir que nunca gostou muito de filmes.

Bukowski tem sido erroneamente identificado com a Geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra nunca mostraram essa inclinação. A cidade de Los Angeles, suas ruas e atmosfera, foram sua principal influência, tratando de histórias com temas simples, misturando por exemplo corridas de cavalo, prostitutas e música clássica. Ele escreveu mais de 50 livros, sem contar milhares de publicações baratas.

Uma de suas principais atividades durante anos foi a leitura de suas poesias em universidades e eventos culturais. Sua leitura debochada às vezes provocava escândalos e brigas com a platéia, algumas delas registradas em áudio. Já nos anos 1980, Bukowski desfrutou de certa fama, convivendo com artistas e tornando-se uma celebridade. Ele morreu de leucemia aos 73 anos, em 9 de Março de 1994, e em seu túmulo se lê "Don't Try", "Nem Tente" em português.

Com o tempo, apareceram alguns herdeiros seus na literatura, principalmente na questão do estilo violento e despudorado de sua linguagem, e que acabou inclusive tendo desdobramentos no cinema. Mas poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sarjeta, fazendo dela, sua fonte de inspiração. De todo aquele inferno imundo e fedido, Bukowski fez o seu paraíso.

Está presente em albuns, músicas, letras, entre outros de muitas bandas, entre as quais: Anthrax, Apollo 440, Leftover Crack, Bad Radio (uma das bandas de começo de carreira de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam), Red Hot Chili Peppers, entre muitas outras. O vocalista Ville Valo da banda Finlandesa HIM e o escritor Felipe Pipoko, têm uma imagem de Bukowski tatuada no seus respectivos braços.

O escritor Maycon Luzan se ispira totalmente em Bukowski em seus contos e sempre afirma que depois de Bukowski começou a encontrar o verdadeiro sentido da literátura.

Livros publicados no Brasil
Romances
Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983. (edição original 1971)
Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985. (ed. original 1975)
Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1978)
Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984. (ed. original 1982)
Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990. (ed. original 1989)
Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995. (ed. original 1995)

Contos, Poesia, Não Ficção
Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea. Porto Alegre: L&PM, 2008.
O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2007.
Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006.
Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos).
Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.

2 de mai de 2010

Lembra do Pearl Harbor?

Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim.
Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes do futebol, bem nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos-da-mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria de fazer amizade, com quem eu teria de me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsiveis e sem graça quando eu deitasse de costas.
Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceira nem a incômoda humanidades deles. Não queria cagar no mesmo lugar nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta.
Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa.
Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queri isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava.
Bukowski - Ao sul de lugar nenhum

29 de abr de 2010

Política


No City Colleger de Los Angeles, logo antes da Segunda Guerra Mundial, eu me fazia de nazista. Mal sabia distinguir Hitler de Hércules, mas não me importava nem um pouco. O negócio é que ficar sentado na sala de aula ouvindo todos aqueles patriotas discursando sobre como deveríamos atravessar o oceano e acabar com tudo aquilo me entediava profundamente. Decidi fazer oposição. Não me dava sequer ao trabalho de ler sobre Adolf, simplesmente vomitava qualquer coisa que me parecia maléfica ou insana.
A verdade é que, de fato, eu não tinha nenhuma crença política. Era apenas uma maneira de me libertar daquilo tudo. Você sabe, algumas vezes, se um homem não acredita no que está fazendo, ele pode fazer um trabalho muito mais interessante, porque ele não está emocionalmente envolvido em sua Causa. [...] Eu levantava durante a aula e gritava qualquer coisa que me viesse à cabeça. Normalmente tinha alguma relação com a Raça Superior, o que me parecia ser bem engraçado. Não falava diretamente dos Negros e dos Judeus, porque via que eles eram tão pobres e perdidos quanto eu era. [...] Ficava surpreso ao perceber a quantidade de pessoas que me ouviam e quão poucas entres elas, se é que alguma, ao menos questionava minhas afirmações.
Bukowski – Ao sul de lugar nenhum.

Medo

[...] Eu atravessava uma espécie de inferno pessoal. Estava muito nervoso, atacado dos nervos: um barulhinho qualquer e eu saltava de susto. Eu tinha medo de ir dormir: pesadelo depois de pesadelo, cada um mais terrível do que o anterior. Ficava tudo bem se eu fosse dormir completamente bêbado, ai não acontecia nada, mas se fosse dormir meio bêbado ou, pior ainda, sóbrio, então os sonhos começavam, sem falar que eu nunca tinha certeza se estava dormindo ou se as coisas estavam acontecendo dentro do quarto porque, quando dormia, sonhava com o quarto inteiro, os pratos sujos, os ratos, as paredes que se enrugavam por causa da umidade, as calcinhas carimbadas que alguma puta deixou no chão, a torneira vazando, a lua como um projétil lá fora, carros cheios de pessoas sóbrias e bem-alimentadas, faróis brilhando pela janela, tudo, tudo aquilo, e eu em alguma espécie de canto escuro, escuro demais, sem ajuda, sem motivo, sem motivo algum, em um canto escuro, suando, na escuridão e na sujeira, em meio ao fedor da realidade, o fedor de tudo: aranhas, olhos, senhorias, calçadas, bares, prédios, grama, a ausência de grama, nada daquilo pertencia a você. Os elefantes co-de-rosa nunca apareciam, mas sim diversos homenzinhos com gestos selvagens ou então um homem enorme e aterrador, que vem estrangulá-lo ou afundar seus dentes na parte de trás do seu pescoço, você deitado de costa chafurdando em seu próprio suor, incapaz de se mover, essa coisa preta, fedorenta e cabeluda está parada ali, em cima de você, em você, em você.

Quando não era isso, era eu ficar sentado durante dias, horas de medo incomunicável, o medo se abrindo no meio do peito como um grande botão em flor, não se podia analisar o que estava acontecendo, imaginar o porquê de tudo aquilo, o que tornava as coisas ainda piores. Horas sentado em uma cadeira no meio de um quarto passam rápidas e impactantes. Cagar ou mijar são esforços tremendos, sem sentido; pentear o cabelo ou escovar os dentes: atos ridículos ou insanos. Cruzar um mar de chamas. Ou servir água em um copo para beber: parece que você não tem direito mesmo a um ato simples como esse. Decidi que estava louco, imprestável, e isso fez com que eu me sentisse sujo. Fui a biblioteca e tentei encontrar livros sobre o que fazia com que as pessoas se sentissem do jeito que eu estava me sentindo, mas os livros não estava lá, ou, se estavam, eu não podia compreendê-los. Ir até a biblioteca não era nada fácil: todos pareciam tão confortáveis, os bibliotecários, os leitores, todos menos eu. Tive dificuldade até mesmo para usar o banheiro da biblioteca... os vagabundos lá dentro, as bichas me olhando mijar, todos pareciam mais forte do que eu... despreocupados e seguros. Continuei saindo de casa para caminhar, atravessava a rua e subia uma escada em caracol de um prédio de concreto onde eram estocadas milhares de caixas de laranjas. Uma placa no telhado de outro prédio dizia JESUS SALVA, mas nem Jesus nem as laranjas valiam o esforço de subir aquelas escadas e entrar naqueles prédios de concreto. Eu não podia deixar de pensar que ali era o meu lugar, dentro de uma tumba de concreto.
Bukowski - ao sul de lugar nenhum

1 de abr de 2010

O mundo sem mim

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.
Bukowski.

30 de mar de 2010

Uísque escôces

Sentia-me frustrado, tudo me derrotava. [...] Eu começava a ficar deprimido. Minha vida não estava indo para lugar algum. Precisava de alguma coisa, o brilho das luzes, glamour, alguma porra. [...] Me sentia esquisito. Como se nada tivesse importância. [...] o jogo me cansava. Eu perdera a garra. A existência não era apenas absurda, era simplesmente trabalho pesado. Pense em quantas vezes a gente veste as roupas de baixo em toda a vida. Era surpreendente, era repugnante, era estúpido. [...]

Frequentemente, os melhores momentos na vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, ai vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência da falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimista pessimista. [...]

Portanto, lá estava eu deprimido de novo. Voltei para casa, entrei e abri uma garrafa de uísque escocês. Voltava ao meu velho amigo,uísque escocês com água. O uísque escocês é uma bebida de que a gente não gosta imediatamente. Mas depois que se acostuma, ele opera uma mágica. Acho nele um calor especial que o simples uísque não tem. De qualquer modo, eu estava deprimido e me sentia numa cadeira com a garrafa ao lado. Não liguei a televisão, descobri que quando a gente está mal essa filha da puta só faz a gente se sentir pior. Uma cara chata após a outra, parece não ter fim. Uma procissão interminável de idiotas, alguns famosos. Os cômicos não tinham graça e os dramas era de quarta classe. Não havia muita alternativa para mim, exceto o escocês.

Bukowski - Pulp

17 de mar de 2010

Embuste


"Uma vez que você percebe que tudo é um embuste, você fica esperto e passa a sangrar e queimar seus semelhantes. Eu ergueria um império sobre as carcaças e vidas destroçadas de homens, mulheres e crianças indefesas - eu os atropelaria. Eu lhes daria uma bela lição."
Charles Bukowski.

Capas de alguns livros







- A saideira e mais uma.
- Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo.
- Tempo de voo para lugar algum.
- A toa em San Pedro.

16 de mar de 2010

Nem tente


Lápide do velho Charles Bukowski - Frase: Don't try (Nem tente). - 1920 - 1994.

15 de mar de 2010

Caixao da Criação

O caixão da criação, a capacidade de sofrer e resistir,
isso é nobreza, amigo. A capacidade de sofrer e resistir por uma ideia, um sentimento, um caminho, isso é arte, meu amigo. A capacidade de sofrer e resistir quando o amor falha, isso é o inferno, velho amigo. Nobreza, arte e inferno,
vamos falar sobre arte por uns instantes. Destino é a minha estropiada filha. Repara, é difícil, eu contra eles,com eles.
Kafka, deixa-me entrar!
Hemingway acautela-te!
Hegel, tens piada!
Cervantes, queres dizer que escreveste esse romance aos 80 anos? Grandes escritores são gente indecente, eles vivem injustamente guardando a melhor parte para o papel. Bons seres humanos salvam o mundo para que patifes como eu possamos continuar a criar arte, tornar-nos imortais.
Se leres isto depois de eu ter morrido há muito significa que consegui. Portanto escritores do mundo agora é a vossa vez de maltratar a vossa mulher abusar dos vossos filhos amarem-se a vós próprios viver dos fundos de outrém ter aversão a toda a arte criada antes e durante o vosso tempo, e ter aversão ou mesmo odiar a humanidade um a um ou em massa. Patifes, mesmo que leiam isto depois de ter morrido há muito esqueçam-me. Eu provavelmente não era assim tão bom.
Charles Bukowski

26 de fev de 2010

Frases diversas do Buk II


Matei quatro moscas enquanto esperava. Porra, a morte estava em toda parte. Homem, pássaro, animal, réptil, roedor, inseto, peixe, não tinham a mínima chance. Tudo carta marcada. Eu não sabia o que fazer. Fiquei deprimido. Sabe, eu vejo um garoto de entregas no supermercado empacotando minhas compras, depois o vejo enfiando a si mesmo na própria cova, junto com o papel higiênico, a cerveja e o peito de frango.

Não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar idéias – nem almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Quero ficar dentro do bloco, sem ser perturbado.

Não valia a pena confiar em nenhum outro ser humano. O que quer que fosse preciso para estabelecer essa confiança, nao estava presente na humanidade.

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou me odiavam vão subitamente me aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades. Será nojento. Será feito um filme sobre a minha vida. Me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.

[...] como é que você vai poder cagar com uma rolha cristã de 2000 metros enfiada no cu?

Nenhuma mulher fode do mesmo jeito que a outra e é isso que mantém o interesse do homem, contribuindo para que ele caia na armadilha.

Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

10 de fev de 2010

Várias frases do velho Buk

"As vezes sou amargo mas no geral o sabor tem sido doce. é apenas que tenho medo de dize-lo. É como quando sua mulher diz, fala que me ama e você não consegue. "

"O mundo me roubou muitas horas e anos com suas ocupações chatas e rotineiras"

"Há sempre uma mulher para te salvar de outra e assim que ela o salva está pronta para destuí-lo"

"que dias penosos foram aqueles, ter a vontade e a nescecidade de viver, mas não a habilidade"

"O dinheiro só traz dois inconvenientes: quando é demais e quando há de menos"

" A gente começa a salvar a humanidade salvando uma pessoa de cada vez, todo o resto é delírio romântico ou político".

"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam até a sua morte."

“[...] Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças. E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples e nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar [...]”

"Uma esposa rosnando no portão é mais do que qualquer homem pode suportar. "

" Quando bebo, o mundo segue sendo um filho da puta mas pelo menos ele tira as mãos do meu pescoço."

Charles Bukowski.

4 de fev de 2010

Pobre


Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de pique-niques em família, festas de Natal, 4 de Julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães..., afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.
Charles bukowski.